Postais de um Fotógrafo de Bairro (X)


Sabe que as visitas ao paço de Vila Viçosa são guiadas? Saem de hora a hora, acho eu. De uma das várias vezes que lá fui, o cicerone tropeçou na língua, mas fê-lo com filosofia. Falou das virtudes históricas de certa cadeira; contou-lhe os episódios;  e no fim, compungido, olhando tão para baixo que o olhar dele atravessava a cadeira e o chão e a Terra toda, abanou a cabeça e disse: “Não tem valor”. O Oscar Wilde já tinha posto a questão em perspectiva quando fez um dos seus personagens dizer (perdoe a tradução, sei que fala inglês bem melhor do que eu): “O que é um cínico? Um homem que sabe o preço de tudo e o valor de coisa nenhuma”. No Mundo das Ideias do cicerone de Vila Viçosa, preço e valor correspondem-se, eles são uma e a mesma coisa. No bairro Clemente Vicente, honestamente, não sei.

Postais de um Fotógrafo de Bairro (IX)


Os ciclistas são gente de fibra, ia brincar e dizer de lycra mas arrependi-me, já não receiam abandonar a parte arranjada do passeio marítimo: arriscam-se à faixa de terreno que liga a estação da Cruz Quebrada à praia do Dafundo, atapetada como está de pregos, cacos de garrafa e toda a espécie de pequenas armadilhas. Um dia chegou-se um ao João e perguntou-lhe se eram "vocês" quem espalhava os pregos e os vidros no chão para depois cobrarem pelo arranjo dos pneus. Perguntou aquilo com ar compincha, parece, mas eu nunca ali vi ninguém que se prestasse a tal serviço e acho que o senhor devia ter tido mais tento no pensar, quanto mais no falar. Uns anos atrás, ao lado dos barcos, havia barracas onde os pescadores guardavam as artes. Depois a autoridade do Porto de Lisboa disse-lhes que aquilo tinha de ir, que a partir daquele momento as construções não poderiam ultrapassar os sessenta centímetros de altura. Se me pergunta, julgo que fosse para que não se vissem da marginal. Duas barracas idênticas são forçosamente diferentes se uma estiver na Carrasqueira e a outra na Linha, todos percebem isso, o rio da minha aldeia não é o Tejo e tal. Os pescadores obedeceram à letra: se não podiam ter nada à superfície, guardariam as suas coisas em profundidade. Não foi provocação, garantem, foi por necessidade que cavaram buracos no chão.

Diz-me o João que às vezes roubam aqui coisas – o mais das vezes ferro para sucata, mas também panelas, louça e talheres que os pescadores, à falta de melhor sítio, escondem dentro dos barcos e retiram nas ocasiões festivas. Ele levanta a pontinha de uma das cobertas para me mostrar o conteúdo – a maior parte das embarcações está bem cuidada, mas a verdade é que já não há quem se afoite a levá-las para o mar – e faz desfilar uma singular colecção de engodos de pesca, segurando-os entre o polegar e o indicador a que um anzol em tempos roubou a ponta. Depois aproxima-se de uma jante de camião que os locais usam para fazer fogo e aponta-a com o cigarro. "Uma vez quiseram roubar isto", diz com cara de gozo, "mas não foram capazes de o carregar".

É estranho pensar que a do Dafundo já foi uma das praias mais chiques da costa de Lisboa, talvez mesmo a mais chique, leia Eça e verá. Mas sabe o que dizem: as fotografias – as que têm mais de cem anos, quero dizer – não mentem jamais.

Postais de um Fotógrafo de Bairro (VIII)



A frequência do Café Africano, no Dafundo, é feita sobretudo de reformados, imigrantes, desempregados e um ou outro sem-abrigo. Ao contrário do que sucede nos outros cafés da zona, para não falar dos bairros menos pé-de-chinelo, ninguém é obrigado a consumir: todos conhecem a sensação de não se ter cinquenta cêntimos no bolso para um copo de vinho, dispensa-se justificações.

O dominó e as cartas, esses estão permanentemente à disposição de quem entre pelas portas de alumínio, não muito convidativas, é certo, mas sempre escancaradas. Há uns meses, apercebi-me de que um só conjunto de peças de dominó não chegava ao Euclides para as encomendas. Lembrei-me de que o meu pai tinha um, muito elegante, de peças cor de ébano. Quão apropriado para uma tasca que se diz africana, não é? Liguei à minha mãe e perguntei-lhe se ele se teria importado que eu desse o dominó. “Claro que não, meu querido”. Eu tinha a certeza que não, até pelo que me lembro dele, mas nestas coisas é importante ter-se uma segunda opinião. Fui a casa da senhora e contei as peças: faltava uma. O mais provável é que eu ou o meu irmão um dia a tenhamos perdido ou trocado por folhas de dossier. Fui dali ao supermercado e comprei um daqueles conjuntos da Majora – seis euros. Doze copos de vinho!

Regra geral, o primeiro a chegar senta-se a uma mesa – todos têm mesas favoritas – e espera. Não tarda muito até que alguém entre e o desafie. Faz lembrar os saloons do Oeste, mas em fórmica e mais aconchegadinho. Quando começa a contenda, um monte de gente sai de debaixo das pedras para apreciar a desteridade dos vizinhos e comentar o jogo. Sempre com muito respeito, que desconcentrar os jogadores é anátema. As zangas são tão raras que se tornam lendas contadas em sussurros. Nos raros dias em que um desafiador tarda em surgir, o próprio Euclides fica contente de se sentar à mesa de jogo e ser humilhado sem dó nem piedade pelo pessoal mais batido. É uma espécie de suplente, o Euclides. Eu, que nunca fui jogador sequer de totobola, tiro fotografias. Já ninguém se espanta de me ver subir para cima das mesas e das cadeiras para fazer retratos. Se quer saber, acho que até os envaidece um bocadinho.

Postais de um Fotógrafo de Bairro (VII)



Pensava eu que o Euclides tinha oferecido umas sardinhas ao senhor Sequeira, mas afinal foi o contrário: o dono da casa encarregou-se das batatas, do vinho e da mesa, o cliente trouxe o petisco. Nem um nem outro mastigam – o Euclides porque tem sempre muito apetite, o senhor Sequeira porque, enfim, “já não pode”, diz um grande bigode que lê o jornal noutra mesa. O brincalhão quer aproveitar a entrada da mulher do senhor Sequeira para se meter um pouco mais com o vizinho, mas a Dona Zulmira faz-lhe que se cale palerma com um gesto largo e ralha com o marido por ter posto o pão em cima das batatas – “As outras pessoas”, entenda-se o Euclides, “ainda podem querer comer”.

No dia em que decorarmos as paredes da tasquinha com as fotos dos clientes habituais, o senhor Sequeira terá lugar de honra: até já lhe tirei um retrato à Presidente da República. Isto mesmo não sendo ele grande cliente, nunca o vi beber sequer um copo de água. Calha bem que o Café Africano não tenha consumo obrigatório. Aproveito que está toda a gente descontraída e ofereço-me para tirar um retrato ao senhor Sequeira. Ao pé dos matraquilhos, talvez, que ele adora futebol e eu às vezes tento que o meu trabalho seja assim um bocadinho mais criativo. Faço quatro ou cinco instantâneos praticamente iguais, com o motor, porque há pouca luz e um deles sempre há-de sair mais definido. Digo "com o motor" porque dá ares de fotógrafo de antigamente, mas agora é tudo electrónico. De rajada, vá. O meu modelo, habitualmente tão acanhado, dá palmadinhas nas cabeças dos bonecos: vê-se na cara dele que está a divertir-se. Mostro-lhe no écran da câmara a melhor fotografia da série e digo-lhe que deixarei uma impressão com o Euclides. Ele tem um sobressalto. Acho que até hoje eu nunca tinha ouvido a sua voz, porque não a reconheço quando me pergunta, a medo,  “Tenho de pagar alguma coisa...?”

Postais de um Fotógrafo de Bairro (VI)



Foi o Zé quem em tempos me apresentou o Costa, um antigo pescador do Dafundo, homem de sorriso perpétuo refugiado num grande bigode. Ele tinha algumas histórias para contar sobre os velhos tempos; e também sobre os tempos difíceis que, afinal, nunca deixaram de o ser. Separados pela linha de caminho-de-ferro da praia do Dafundo – agora despromovida a “areal”, até porque vai nascer ali uma marina (disseram-mo na Junta) e na praia não se podia construir marinas mas no areal já se pode –, os locais fazem-se tontos e atravessam onde não devem. A verdade é que o caminho até à passagem mais próxima, na estação da Cruz Quebrada, não é tão curto quanto isso e esta gente já não vai para nova.

Eu sabia que de vez em quando havia acidentes na zona e questionei o Costa sobre o assunto. Ele contou-me a história do Rui (que eu já tinha ouvido, com menos detalhes, ao Euclides). O Rui é um filho do bairro e trabalha como maquinista na linha Lisboa-Cascais, a mesma que os seus amigos e vizinhos atravessam todos os dias. “Da primeira vez que passou por cima de um”, disse o Costa, “não comeu nem o pequeno-almoço, nem o almoço, nem o jantar. Da segunda vez já conseguiu jantar. Da terceira, almoçou e jantou”. Então o Costa ficou em silêncio. Não havia necessidade de continuar, havia? É bem capaz de haver uma história como esta em cada apeadeiro de cada linha de caminho-de-ferro do mundo, mas não deixa de impressionar.

Há dias, um comboio vindo de Cascais teve problemas nas rodas de uma das suas carruagens no momento em que passava frente ao Dafundo. Deu nas notícias, mas o Euclides já me tinha informado sobre o fumo e as faíscas que vira sair do rodado e de como o chiado tinha feito toda a gente na tasquinha saltar das cadeiras. O maquinista, soubemo-lo depois, conseguiu reduzir a velocidade, mas não pôde evitar o descarrilamento de uma das carruagens. O acidente deve ter causado danos a uma agulha; outro comboio, embora avisado e seguindo o primeiro a medo, viu metade da composição desviada para a linha do lado. Faço ideia os passageiros. Deixei os homens entregues a um prós-e-contras (mais contras-e-contras, na verdade) de se poupar nos sítios errados e dirigi-me para o local onde se alagartava o comboio acidentado. Uma equipa de manutenção tentava remover a carruagem descarrilada. Sentadas na orla do passeio marítimo, equipas de reportagem esperavam que algo de interessante acontecesse. Tirei algumas fotografias e dei comigo a pensar que pelo menos hoje o Rui faria todas as suas refeições.

Cravo & Ferradura

José Bandeira/DN

Bandeira de Canto

José Bandeira/JN

Cravo & Ferradura

José Bandeira/DN

Cravo & Ferradura

José Bandeira/DN

Postais de um Fotógrafo de Bairro (V)



Alguns dias atrás, a Dona Francisca celebrou o seu 93º aniversário (ela diz que faz 82,mas o Euclides, do Café Africano, diz-me que 82 faz ela há já uma quantidade de anos). Cabo-verdiana de S. Vicente, a Dona Francisca responde a tudo com um inclinar de cabeça e um “Como é?”, por ser quase surda, mas a verdade é que faz uma grande companhia para a conversa.  Abre o jornal, lê as gordas em voz alta, ri-se delas, canta, “Estás no meu coração”. Sentamo-nos à mesma mesa e eu peço-lhe para tirar um retrato. “E porquê não?”,  diz, “Com o vento a soprar assim, eu não posso ir dar o meu passeio da manhã”.  A Dona Francisca parece uma folha seca de tão leve. O marido é mais novo, anda pelos oitentas e carrega malas na estação de Algés. É disso que vivem, parece. Ainda me lembro de quando lhe vi a figurinha pela primeira vez. Entrou na tasca, chamou o pai do Euclides – que a trata por tia, embora não lhe seja nada – e deu-lhe um pacotinho de leite, daqueles pequeninos, dentro de um saco de plástico.

O Sr. Pedro agradeceu como se tivesse recebido um carro novo.

Postais de um Fotógrafo de Bairro (IV)



Esta manhã, ao atravessar uma rua do Dafundo em direcção ao Café Africano, causei uma revoada de pombos. Repare, foi sem querer, mas podia tê-lo feito de propósito. Os pestinhas voaram em todas as direcções – a maior parte para cima – assim que me viram; e eu dei comigo cara-a-cara com esta senhora de ar amável. Eram seus, os pombos que eu havia assarapantado. “Não se preocupe”, disse-me, “eles voltam”, e mostrou-me o isco, uma embalagem de comida para pássaros. Era tão bonita que eu mesmo poderia comer dela. “Um homem é mais homem por aquilo que cala do que por aquilo que diz”, li algures. Fez-me impressão quando li isso e faz-me impressão agora. Guardei para mim que me ralo pouco com pombos ou que os vejo como ratazanas com asas. Em vez disso, contei-lhe como conhecera a Inês quando ela, certa madrugada, estava a dar de comer aos pombos na avenida da Liberdade; e como depois soube que dormia, com o marido, em bancos de jardim.

Então esquecemos os pombos e conversámos um pouco sobre a desafortunada condição do país.

Postais de um Fotógrafo de Bairro (III)


Para os frequentadores do Café Africano, no Dafundo, ele é “o Pai Natal”. Ninguém sabe em que rua ele vive ou qual o seu verdadeiro nome. É a primeira vez que o vejo e já anseio por lhe tirar o retrato. Quase tudo no Pai Natal é raro: a longa barba branca, a malinha de couro batido, a gravata azul com jogadores de golfe bordados. Ele lembra-me Walt Whitman. Não que eu tenha conhecido o homem, mas o facto é que me lembra. O Pai Natal parece-me absolutamente inacessível, mergulhado em algum arcano que apenas os Iniciados sabem ler entre as linhas de um jornal diário. Penso numa forma de o abordar, mas chega alguém da rua e senta-se à sua frente. Tresanda a vinagre de tinto e não se cala. O Euclides diz-me que é “um chato”. O Pai Natal não o olha sequer. Levanta-se devagar e começa a arrumar as suas coisas – os óculos, a caneta, o bloco-notas – na malinha. É o meu momento. Digo-lhe que tem uma barba extraordinária e que gostava de lhe tirar o retrato. Ele devolve-me um grande sorriso e aceita. Acabo por fazer uma meia-dúzia de instantâneos. Digo-lhe que lhe deixarei uma impressão com o Euclides. Ele diz que tem pena de que eu não o tenha fotografado com os seus óculos – um par de grandes lentes laranja aprisionadas numa armação muito grossa. Tiro-lhe o retrato com os óculos, mas não lhe escondo que prefiro vê-lo sem eles. Ele responde-me como só um filósofo o faria. “Não consigo ver-me ao espelho sem os óculos”, diz; “logo, sem os óculos eu não existo”.


Informa-me hoje o Euclides que entregou a fotografia; e que, não obstante a falta dos óculos, o Pai Natal ficou “mesmo muito satisfeito” com ela.

Cravo & Ferradura

José Bandeira/DN 13.5.2013

Postais de um Fotógrafo de Bairro (II)



O João, madeirense de 53 anos, trabalhava na indústria do cinema e da publicidade como técnico de geradores. Já teve ocasião de testemunhar um apagão de estúdio? Há um som de whooooom e depois BANG! – o Universo colapsa numa partícula. Eis o que o João faz: ele previne regressões paroquiais do Big Bang. Ou prevenia, porque a crise e a austeridade deixaram-no sem trabalho.

Quando a maré está “grande” (eu não conhecia a expressão, quer dizer que a maré está mesmo muito baixa), o João vai apanhar ameijoas para Alcochete. Um dia, já combinámos, vou com ele para tirar fotografias. “Tudo o que precisas”, diz, “é de um par de galochas. E de um seguro de equipamento”. Como muitos dos habitantes do bairro Clemente Vicente, no Dafundo, o João passa algum do seu tempo na faixa de terreno onde se estende a linha Lisboa-Cascais. Ele alimenta os pombos, cultiva vegetais e, havendo companhia, deita-se a um jogo de cartas regado a vinho tinto com Seven-Up. Já o vi muito zangado com o Euclides por causa da Seven-Up. O Sr. Pedro, pai do Euclides e dono do Café Africano, não pode dar-se ao luxo de abrir uma garrafa de litro e meio e não a gastar até ao fim. O João anda irritadiço com a falta de trabalho, mas também é verdade que o vinho pede Seven-Up com muito gás.

Mesas e cadeiras sobrevivem entre barcos sem uso, pilhas de garrafas vazias e tralha de toda a espécie. O Zé (um natural do Dafundo: ele lembra-se até de ter andado ao colo da Condessa de Ribamar, hoje com uns cem anos) foi o primeiro a trazer-me a este reduto, meses atrás, e a mostrar-me a engenhosa cadeira que se vê no postal. Aponto-a ao João que, não sem orgulho, avoca para si a autoria da peça: fê-la a partir de dois objets trouvés. Tiro-lhe o retrato com a sua obra de arte.

Alheados da significância do momento, ciclistas e joggers insistem em passar.

Postais de um Fotógrafo de Bairro


Manhã cedo no Café Africano, Dafundo: o habitual ajuntamento de reformados, desempregados e especialistas ocasionais em todos os trabalhos de construção, canalização, electricidade e o mais que calhe nesta época de sabe Deus. Tiro da mochila uma impressora portátil (pense no sistema como uma Polaroid em esteróides), instalo-a sobre uma mesa e pergunto à assistência quem se chega à frente para uma fotografia. Não tenho dificuldade em arranjar voluntários. Os habitués conhecem-me, sentem-se à vontade com o meu trabalho, muitos têm em casa retratos que lhes tirei. Quem primeiro se apresenta é o Sr. Sequeira, um cavalheiro reformado que nunca bebe nada, nem mesmo oferecido. Da avenida Ivens, e do Tejo para lá dela, chega um brilho imenso. Decido aclarar um pouco as sombras e peço ao Fernando para segurar um flash. O Fernando chama-me “amigo Zé”. Ele vive debaixo da ponte ferroviária que anuncia a estação da Cruz Quebrada e anda a tentar poupar 5 euros para um corte de cabelo, mas as moedas encontram sempre o caminho do balcão de Euclides. Depressa se torna um especialista em iluminação de estúdio. Quando chega a vez do Fernando, peço ao Sr. Marinho para segurar o flash por ele. Então o Fernando dá-lhe algumas dicas muito profissionais. “Tem de me ver através desse buraquinho no papelinho branco”, diz. O Sr. Marinho aquiesce. Caramba, eu nunca teria pensado nisso.