31.12.09

Da conversão da Rússia

Em criança, eu pensava que a Rússia dos czares era uma nação atrasada porque aquilo a que chamamos “Revolução de Outubro” acontecera em Novembro. Sei agora que a décalage se deve a questões religiosas com não despiciendas consequências geórgicas, mas desde então tenho muita atenção com isso das datas. Jamais dou parabéns atempados a aniversariantes e nunca celebro uma efeméride sem antes proceder a uma investigação escrupulosa que, em regra, me toma vários anos e consome variadíssimos subsídios.

Compreenderá o benquisto leitor, tendo em conta o que acima escrevi, que me atrase um pouco nos desejos de felizes seja o que for, mas este ano abrirei excepção e gritarei à janela (fechada se a temperatura baixar dos oito graus),

Um 2010 supimpa para todos os leitores do BV!
Já o não-leitor do BV terá de esperar que eu conclua as minhas indagações e publique a monografia, mas previno-o desde já que a coisa está preta: tudo indica que hoje são, não 31 de Dezembro de 2009, mas 4 de Setembro de 1990, o que faz do dia de amanhã, quanta coincidência!, o do meu 27º aniversário. Estarei aceitando parabéns e lembranças entre as três e meia da tarde e as oito, após o que tentarei explicar aos meus filhos que, não tendo eles nascido ainda, inexiste qualquer justificação para alimentação, quanto mais para prendas e mesadas, as cujas exigirei de volta. Serei magnânimo, porém: não terei em conta, nem a inflação, nem compensações devidas por eventual estado de sucata dos objectos devolvidos.

14.12.09

Anarquia

Um Rei Republicano fez um Golpe de Estado contra Si Mesmo e derrubou a Monarquia Absoluta; o Povo, agradecido, nomeou-o Presidente Vitalício. No dia da Tomada de Posse, porém, Conspiradores Monárquicos lançaram um Contra-Golpe e restauraram-no no Trono da Nação. O Povo, reconhecido, pediu ao Rei que mandasse decapitar o Cabecilha da Rebelião Republicana. Sua Majestade graciosamente acedeu ao desejo do Povo, instalando-se então uma Anarquia.

14.10.09

Ginásio Blues (I)

Venho fazendo, olímpico leitor, “treino acompanhado”. Ao que percebo, aconselham isso aos clientes cujo grau de descoordenação espacial pode resultar em processo contra o ginásio. Se existe uma probabilidade elevada de o seu nariz tocar o tapete rolante onde décimas de segundo antes estavam os seus Nike novinhos em folha, tem “treino acompanhado” tatuado na testa.

O problema é que a gente sente-se tão… enfim… acompanhada. Fiz um monte de exercícios que só percebi que eram exercícios quando o treinador me pediu para tentar não adormecer tantas vezes. O pior momento foi talvez quando me passou para as mãos uns humilhantes “pesos”. Pareciam daqueles ossos de borracha para cães, mas mais leves e em tons rosa. Fez-me sentar de frente para um espelho (há espelhos para onde quer que se vire, fazem de propósito para que sinta vergonha) e explicou-me que devia executar movimentos ritmados para fora e para dentro com os braços, como se estivesse a abrir e fechar as portas duplas de um armário mas sem a parte útil de retirar alguma coisa lá de dentro.

Só por si aquilo dos ossos cor-de-rosa já era embaraçoso, mas não tanto quanto o que se seguiu. Ouvi aproximando-se rapidamente por trás de mim o que me pareceu ser a respiração aflitiva de um rinoceronte com asma, ou um expresso inter-cidades com uma roda empenada e um grupo de poetas no interior ensaiando para uma sessão de leitura ao vivo, eu não podia ter a certeza. Era afinal um sujeito grande, parrudo, aquilo a que na minha juventude se dava o nome de “quarto de leite Vigor”, e quase me desarticulou a omoplata direita com a deslocação de ar que provocou quando passou por mim (não sou um homem baixo, mas não se esqueça de que estava sentado). Sacou rapidamente de um par de halteres de ar pesadíssimo que estavam encaixados numa estrutura metálica e, urrando a cada gesto como um urso a quem acabam de informar que o bosque onde ele planta umas couves vai ser aplanado para que uma multinacional sueca construa no local um centro de bricolage e artigos para o lar, começou a erguer e baixar os pesos como se estes mais não fossem que simples esferovite pintada.

Comecei a suar solidariamente. Quando o Sansão por fim parou, olhei primeiro para os meus ossinhos cor-de-rosa; depois, para os colossais halteres do, eh, colega. Então aproveitei um momento em que o treinador estava a dar atenção a uma senhora que tinha dúvidas sobre a flacidez dos glúteos. Apontei os halteres e, pondo o ar mais casual de que fui capaz, perguntei:

Já não vai precisar desses?

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, 13.10.2009

23.9.09

Ruídos

Saudade de ruídos: do transístor, da Singer, da dobadoura,
da Underwood com a falha no ó.

24.8.09

Autárquicas

A celebrada baixa pombalina teria decerto merecido o elogio de Hipodamo de Mileto, o pioneiro projectista das cidades geométricas e do planeamento urbano; mas também a reprovação dos seus contemporâneos – uma cidade onde um estranho facilmente se orienta é uma cidade mais fácil de conquistar.

14.8.09

Dos valores

Em Lady Windermere’s Fan, Oscar Wilde fez Lorde Darlington declarar que um cínico é aquele que conhece o preço de tudo e o valor de coisa nenhuma. Pela pena de pato de Shakespeare – ou, parafraseando o próprio Wilde, de outro inglês com o mesmo nome –, Tróilo (só o nome já diz tudo, não acha?) garantia a Heitor que Helena devia toda a sua valia ao facto de ser a causa directa de uma guerra gloriosa, não o contrário. E o cicerone do paço de Vila Viçosa rematava entusiasmadas descrições de raríssimas peças de mobiliário com um abanar de cabeça, acompanhado por um comovido “não tem valor”.

3.8.09

À la Bierce ou Esopo Remendado

“Pode tirar-me tudo menos o Direito à Indignação”, indignava-se um Homem Indignado. “Não posso tirar-lho, mas posso taxá-lo”, respondeu o Governante Insensível. E quanto mais o Homem Indignado com isto se indignava, mais o Governante Insensível, com a ajuda de um Indignómetro, via o lado da receita subir.

16.7.09

Urgências

No sinal luminoso lia-se “URGÊNCIAS”, mas a recepcionista decidiu que o meu problema não merecia atenção clínica, muito menos àquelas horas perdidas, e sugeriu a tasquinha-aberta-24-horas ali ao virar da esquina ou qualquer coisa tipo oriental que metesse agulhas, pedras quentes e mentes vazias. Eu retorqui que, desde que se pague, num hospital privado tudo é do foro clínico – dores existenciais, roupa que repentinamente deixou de nos servir e angústias relacionadas com Literatura. Então ela entregou-me a uma ortopedista a quem faltavam apenas duas noites para a reforma (problemas de ossos, percebi pelos estalidos; mas isso agora não interessa, estamos a falar de mim, ok?).

Conversámos bastante sobre tudo e sobre nada. Ela explicou-me que “a ortopedia foi o maior avanço da humanidade desde que alguém percebeu que as arestas desgastadas de um berlinde o arredondavam e que dessa forma rolava bem melhor”. Nunca fui muito de jogos, mas achei isso interessante.

Saí do hospital sentindo-me outro. Um tal Nando que bebe J&B e trabalha num gabinete de contabilidade da baixa. O J&B tudo bem, a parte mais chata ainda é essa da contabilidade. Caramba, logo eu, que em contas sou um nabo elevado à décima quinta potência.

25.6.09

O Universo Elegante e outros contos

Desculpe qualquer conversa que me escape sobre mecânica quântica, cosmologia, supercordas, horizonte de acontecimentos, singularidade, entropia e coisas que se lhes semelhem. O desgosto com a crise deu-me para ler sobre o assunto, já vou no milésimo calhamaço – o que terminei agora, The Fabric of the Cosmos: Space, Time, and the Texture of Reality, tem praticamente 600 páginas neste universo (noutros pode ter ou não). E no entanto, só ultimamente comecei a ter noção de que, por exemplo, menos que dez dimensões espaciais é coisa para meninos e que se pode passar através de um túnel de verme sem se ter nojinho dele (e ainda ganhar tempo com isso).

Deixe que me orgulhe de dizer que eu mesmo já ilustrara, para os livros do Carlos Fiolhais e do professor Dias de Deus (ambos excelentes terráqueos e bons amigos, saudades de uma almoçarada, para a semana terei um pouco de tempo e muitas perguntas) os Grandes Mistérios da Física, tanto da astronomicamente grande (como a Relatividade Geral, Restrita e Não sabe / Não responde) como da ridiculamente pequena (conhecida nas cantinas das faculdades como “Física da Partícula de Napoleão”).
Mas não ligue, isto passa-me. Até Freud disse que às vezes um buraco negro é apenas um buraco negro. Ou se não o disse neste, disse-o num universo paralelo qualquer.

23.6.09

A Áustria não existe. Ok?

Eu nunca tinha assistido a uma peça de Schnitzler. Eu jamais lera uma frase escrita por Schnitzler. Eu não sabia como pronunciar correctamente “Schnitzler”. Sempre suspeitei de que esse Schnitzler nem sequer tinha existido, até porque me diziam que havia nascido austríaco e eu não acredito na existência da Áustria. Sei que isso cobre com o infame véu da dúvida ontológica as vidas e feitos de um monte de celebridades, mas, e então? Repare como Freud, outro “austríaco”, considerava Schnitzler (numa carta que, muito convenientemente, lhe “escreveu”), uma espécie de “versão literária” de si mesmo. Conspirações existem, e quanto mais descaradas, cândido leitor, quanto mais desavergonhadas, mais eficazes. Acredite.

O monólogo durou duas horas que, não fossem aquelas cadeiras (ok, o problema pode ser da minha espinha de fancaria, mas ser-se rezingão é um privilégio que vem com a idade), durariam um instante apenas, porque Rita Durão fez esquecer o tempo que passava. E felizmente o Universo é cíclico, ou ela não poderia ter repetido aquele papel todas as noites. Oh, bolas. Revelei o fim? Desculpe.
[Eu visitando a página da Cornucópia e batendo com a cabeça repetidamente numa porta]
Eu queria ter escrito sobre este assunto antes, queria que fosse ver a Rita Durão, mas apenas agora me apercebo, com pena, de que a peça já saiu de cena. Aqui me detenho. Que fiasco. Enfim, como Beckett, falhar outra vez, falhar melhor. A título de consolação, saiba que o texto, em tradução de José Maria Vieira Mendes, está editado em português pela Cotovia. Pode ler um resumo na página deles.

E por favor, vamos parar com essas invenções de “Áustria”, “Wittgenstein”, “Popper”, “Klimt”, “Mozart”, “Segunda Escola de Viena”, etc. Ok? Caramba, existe um limite para a puerilidade.

22.6.09

Entropia

A Segunda Lei da Termodinâmica diz-nos (e simplificarei para não intimidar o leitor que, ao contrário do que sucede comigo, não toma o cafezinho da manhã na cantina de Cornell) que a entropia de um sistema isolado – entendida aqui, por derivação de sentido, como o seu grau de desordem – tende a aumentar com o tempo até atingir um valor máximo, que será o de equilíbrio.

No caso do meu automóvel, esse momento mágico acontece quando surge no vidro traseiro a mensagem “lava-me, porco”.

18.6.09

Cultúr éireann

Imagine, plurilingue leitor, um micaelense imitando o sotaque algarvio num teatro de Oslo repleto de espectadores inuit. Terá então uma ideia do quanto Jimmy Joyced!, o monólogo apresentado pelo brilhante Donal O’Kelly no Jardim de Inverno do S. Luiz, era perfeitamente inteligível – pelo menos para a parte da assistência constituída pelo representante da embaixada da Irlanda.

A ideia era celebrarmos Bloomsday, mas Donal tinha uma pronúncia irlandesa tão densa que um pouquinho mais de massa e seria um buraco negro. Nem mesmo na Babel pós-intervenção divina eu ouvi semelhante algaravia, se exceptuar o doido do Simões do 7146º (e último) andar. Hoje, na era da Ciência, sabemos que aquele brlghbrl tinha algo a ver com a rarefacção de oxigénio.

Mas ok, deu para perceber que O’Kelly é um excelente actor, dotado de enorme expressividade e senhor de uma voz muito flexível. Isso tornou a minha incapacidade para perceber dois terços do que ele dizia ainda mais dolorosa, e sublimei a frustração pensando em como irlandeses não deviam usar franjinha em climas quentes porque ela fica toda suada e aos caracolinhos, como as do cabelo das meninas vitorianas antes da invenção do banho diário pelo Dr. Doosh.

Felizmente eu tivera o cuidado de ler, na meia hora anterior, as Obras Completas de James Joyce (incluindo, naturalmente, Orgulho e Preconceito, A Abadia de Northanger e Emma), para além do útil The Bluffer’s Guide to Icelandic Literature. Isso – e ouvir Björk cantando as suas bonitas baladas celtas – ajudou-me a entrar no espírito irlandês e a ir reconstruindo o que podia das conversas de Jimmy Joyce com o pai meio doido, o traumático episódio religioso com a mãe, o encontro com o modelo de Bloom, o passeio com Nora Barnacle, a medalha de bronze que ganhou no Eurofestival da Canção e que tanto o desiludiu, etc., etc..

De tempos a tempos ouvia-se uma gargalhada bem lá no fundo da sala, emitida pelo representante da embaixada irlandesa (ou por uma gravação de Brigitte Bardot assistindo à execução de um comerciante de casacos de pele, não tenho a certeza, mas acho pouco provável). As almas remanescentes guardaram todo o tempo um respeitoso silêncio, mesmo quando os gestos do histrião denotavam um grau de comicidade que parecia seguro premiar com pelo menos uma risadinha. Mas olhe, talvez tenha sido melhor assim, quero dizer, mais absurdo: no final toda a gente gostou muito, o representante da embaixada da Irlanda limpava as lágrimas dos óculos [eu tentando lembrar-me se ele tinha óculos] e na rua aglomerava-se um pequeno grupo de apoiantes de Mussavi perguntando, em inglês escrito com sotaque universal em papéis verde-brancos, “Where is my vote?”: como aconteceu com o monólogo de Dolan, ninguém entendeu os resultados daquelas eleições.

Imaginei O’Kelly gastando algumas horas no seu quarto de hotel a tentar perceber o que se passara no S. Luiz e achando, pelo menos enquanto durava o lote de Jameson do minibar, que os portugueses se riem, afinal, como os escandinavos – sem pestanejar nem mexer os lábios, os mais divertidos fazendo até que estão mortos ou disputando campeonatos de ver-quem-mexe-a-boca-primeiro, sabe como é, como mimos franceses mas completamente diferente.

Na noitinha do dia seguinte, outro monólogo, o da menina Else (pequena grande Rita Durão!), percebeu-se do princípio ao fim, mas eu recuso-me a falar disso enquanto a Cornucópia mantiver aquelas cadeiras – ou enquanto amanhã não chegar, o que acontecer primeiro.

Bandeira de Papel


Cravo e Ferradura, DN, 18.6.2009

9.6.09

Conhecer o porteiro

Mais logo verei – e ouvirei – Don Giovanni caindo nos infernos. E foram já tantas as vezes que o vi – e ouvi – cair nos infernos, que começo a convencer-me de que aquilo é um sítio de onde não é tão difícil assim sair e voltar a entrar.

Clara e distintamente

Após o décimo primeiro derrame na vista tentando ler a mesma frase de What I Loved”, de Siri Hustvedt (We tracked Matt’s development with the precision and attentiveness of Enlightenment scientists”), percebi finalmente que o problema não estava na frase, aliás muitíssimo conseguida, mas nos olhos em si.

Eu havia sido prevenido pela minha oculista e pela Oprah Winfrey de que, em alguma altura após o 40º ano de vida, os mecanismos de focagem japoneses no interior dos globos oculares estão programados para deixar de obedecer às ordens que o cérebro lhes fornece, em particular se este for de fabrico nacional. A nossa visão ganha personalidade e passa a interessar-se exclusivamente por aquilo que lhe dita o capricho próprio; sendo que raramente lhe apetece fixar-se em frases de pendor literário ou filosófico, preferindo perder-se em objectos distantes, nem sempre desinteressantes mas frequentemente inapropriados para o homem de princípios elevados que modestamente me vanglorio de ser.

Eu, porém, tomara a benigna advertência por uma tentativa comercialmente orientada para impingir “lentes progressivas” aos meus óculos novos. Sabe quando vai ao mecânico trocar um pneu e ele lhe diz que aproveitou para trocar discos, pastilhas e o motor? Pois eu achei que a visão humana não deve ser doutrinada e escolhi lentes com a mesma graduação das que trazia, uma vez que a dificuldade que me levava a trocar de óculos consistia apenas numa certa inadequação da armação: por mais que uma vez amigos me preveniram de que as hastes lhes pareciam mais apropriadas para literatura light que para o género de leitura pretensiosa e obscura que gosto de exibir em esplanadas, centros culturais e antigos países de Leste.

[Eu tentando perceber por que raio escrevi isso dos países de Leste]

Agora, curvado ao peso da evidência e sufocado pelos fumos de suspeição em que injustamente envolvera a honesta oftalmologista, trago para casa “óculos para ler”. Terei de me habituar ao ritual de andar com o aparato óptico pendurado ao pescoço ou assente na pontinha do nariz, uma vez que, para lá dos 40cm, toda a gente me parece o rato Mickey – ou a rata Minnie, se tiver voz grossa –, motivo pelo qual não dispenso os óculos “de ver ao longe”.

Eu não o esperava, dióptrico leitor, mas a minha capacidade de leitura aumentou de uma forma excepcional. Li em meio dia o baú da Summa Theologiae de Aquino, incluindo a parte que ele nunca chegou a escrever, no latim original; aproveitei os intervalinhos de café para uma revisão aprofundada da Suda bizantina e, em jeito de digestivo, devorei os três volumes de Decline and Fall of the Roman Empire, de Gibbon, anotando erros factuais e incorrecções de interpretação nas margens de nada menos que 638 páginas. Também as minhas capacidades indutiva e dedutiva (antes apenas distinguia uma da outra expondo-as, lado a lado, à luz do sol) sofreram um apreciável incremento de acuidade. Ao passar os olhos com os óculos novos pelo Crítias, por exemplo, apercebi-me de que Sócrates teria morrido com muito mais qualidade se os atenienses do período clássico usassem cicuta de cultura biológica.

Planeio agora uma velhice elegante. Óculos na ponta do nariz sugerem temperamento afável e evocam a sabedoria da idade; um confortável quimono japonês em seda dará o necessário toque de sofisticação novecentista; a gota, em piorando, pode ser aliviada com o auxílio de uma distinta bengala. Tudo isto vejo eu agora muitíssimo bem.

Oh, ok, um momento de franqueza. A verdade é que estou ainda a habituar-me. Não tenho sequer a certeza de que esteja aí desse lado, embaciado leitor. Nestas inusitadas semanas de pontes que vão de nenhum lado a lugar algum, não há como sabê-lo. Mas vou fiar-me, mesmo não o vendo a si, que o leitor, a mim, me consegue ver com cartesiana convicção, isto é: clara e distintamente.

8.6.09

De lua cheia

Quando passo na rua e um muro, um hidrante ou um semáforo calham cumprimentar-me, retribuo a gentileza; e só então reflicto sobre como é estranho ser-se cumprimentado por um muro, um hidrante ou um semáforo.

Estou convencido de que a boa educação nos ajuda a preservar a saúde mental neste mundo de gente alucinada.

O lugar (II)

A senhora Cheng Feng, Secondary Announcer de uma tal “Huangshi Dongbei Electrical Appliance Co., Ltd.”, informa-me por correio electrónico de que ganhei o segundo lugar das suas promoções anuais, tendo direito a um Range Rover e a 970 mil dólares americanos.

Existe algo de profundamente deprimente nisto. Não tanto no facto de se tratar de um esquema para me sacar dinheiro; mas em saber que, num esquema para me sacar dinheiro, fiquei em segundo lugar.

O lugar (I)

A barra “que antes estava em baixo”, no computador da minha mãe, agora “passou para o lado”, o que, naturalmente, a incomoda. E a senhora pede-me que, em visitando-a, ponha a barra “no seu lugar”.

Humanos, demasiado humanos

Como na Atenas clássica, escolhemos ontem os cidadãos que queremos a todo o custo ver fora do país por alguns anos. Mas vá, somos mais humanos: reduzimos o período de ostracismo para metade e sempre lhes damos algum dinheirito para se irem aguentando lá no estrangeiro.

1.6.09

I forget

O túmulo siciliano de Ésquilo não faz qualquer menção à sua dramaturgia: exalta apenas a coragem que demonstrou, em Maratona, contra “os medos de longos cabelos”. É como se na lápide de Samuel Beckett, que a pedira de uma cor qualquer desde que fosse cinzenta, constasse algo como

Jogou críquete pela Universidade de Dublin, tendo sido fundamental em duas vitórias sobre Northamptonshire; tem uma entrada no afamado Wisden Cricketer’s Almanack.

Ele decerto teria aprovado isso, mas não se lembrou.
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Nota: esqueça a importância de Maratona para a afirmação de Atenas, uma cidade que até então vinha apenas mencionada de passagem no “catálogo das naus” da Ilíada e em  meia dúzia de mitos obscuros; esqueça o orgulho de Ésquilo na glória da sua cidade; não é disso que estou a falar. Eu não sei sequer do que estou a falar. I forget.

25.5.09

A segunda namorada de Heisenberg

No ano de 1925, o jovem físico Wolfgang Pauli lamentava-se: “A Física está, neste momento, completamente errada. Para mim, pelo menos, é demasiado difícil. Eu antes queria ser um comediante e nunca ter ouvido falar de Física na minha vida”.

Apenas um mês passara sobre o queixume de Pauli quando o seu colega Heisenberg apresentou ao mundo a Mecânica Matricial, primeira formulação verdadeiramente hilariante da teoria quântica e também o nome da segunda namorada dele.

Pauli, entusiasmado, abandonou de imediato as pretensões à comédia, que ele até aí supusera ser muito mais divertida que a Física de Partículas. “Caramba, como estava enganado”, pensava rindo como um louco, e febrilmente anotava tiradas de stand-up physics na ardósia negra do laboratório da universidade.

4.5.09

Haverá expressão mais sem sentido que "passo de corrida"?

Eu queria muito responder a comentários e escrever um poste bem longo e sem gralhas. Contar como, para evitar problemas como o que relatei dois postes abaixo, passei a usar exclusivamente cartões Multibanco de outras pessoas. Ou como ando muito contente por o meu filho gostar cada vez mais de peixe (mas será que o raio do oceanário nunca fecha para férias?). Ou ainda como, durante o longo fim-de-semana, meditei sobre algumas questões metafísicas de grande profundidade, tendo concluído que devemos agir sempre como se no dia seguinte todo o comércio estivesse encerrado.

E contudo, hélas, não posso. Urge resolver questões do foro burocrático; e pelas 14:30, mais hora, menos hora, tenho a consulta em que a doutora A. me vai dizer se estes últimos quatro meses de renúncias – suporta e abstém-te, diriam os estóicos – valeram a pena, ou se terei mesmo que deixar de praticar parkour (e a sua versão de salão, a canasta).
Ocorre-me agora escrever

todo o início é precipitado; todo o fim é prematuro

porque o poste não apenas não ficou tão curtinho assim, como ainda não terminou. Falta esse parágrafo aí em baixo, onde eu digo que

Mais logo, dependendo de me ter ou não dependurado do arrevesado ramo de alguma olaia, eu volto, perseverante leitor.

Mínimas

Tem razão. Agora use-a.

28.4.09

Abra e não feche, mesmo que doa

Hoje de manhã, enquanto no televisor da salinha de espera peroravam qualquer coisa sobre como emagrecer pelo sexo e a forma correcta de medir o pénis (recordo-me de ter ouvido Goucha dizer algo como “não há fita métrica para o meu tamanho”, o que me deixou a pensar em como a vida afectiva dele deve ser um pânico), a assistente do meu ortodontista – há que chamar as coisas pelos nomes – debitou-me, em vez dos 68 que eram de lei, 680 euros no terminal Multibanco.

Detectei o excesso barroco assim que o papelinho assomou à boca da maquineta, como se aquele zero do “680” viesse impresso a vermelho fluorescente. Então balbuciei, com uma bola de ténis entalada na garganta mas rindo muito, “hahaha, isto hoje foi uma inspecçãozita de rotina a puxar para o carote, não há fita métrica que chegue para esta conta”.

A assistente olhou para o pedacinho de papel térmico que eu, lutando contra uma apoplexia que entretanto me assaltara, lhe passara para a mão. Inspeccionou-o por um momento, levou a mão ao queixo pensante e disse tranquilamente:

“Bolas, por 680 euros tínhamos-lhe posto uma coroa”.

Assim andam, leitor, as monarquias.

21.4.09

Hello

Estou de volta, obrigado por não desistir de mim e tal, sei que a vida por aqui não tem sido fácil.
Daqui a pouco almoçarei com a minha filha e levar-lhe-ei a sua primeira reflex Nikon, após o que ela publicará num blogue dúzias de fotos de mim tentando esconder-me debaixo da costeleta de novilho que estou proibido de comer. O meu rapaz também está fino, obrigado por se interessar. Há dias, ao telefone, ele tinha-me dito:
“Este fim-de-semana não vou ficar agarrado ao computador.”
“Não vais mesmo?”
“Não. Vou ficar agarrado à televisão.”
Mais logo eu volto, quem sabe com uma resenha ilustrada das aventuras do meu ectoplasma na pérfida Albion, um conto erótico ao gosto barroco ou uma descrição pormenorizada dos processos de construção naval ao tempo da Restauração Inglesa, ainda não consegui decidir-me mas um desses quatro há-de ser.

13.4.09

Eterno retorno

Sei que o compassivo leitor perdoará a ausência. Será breve. Entretanto, e para que as folhas do BV não vão saindo em branco, aqui vai uma selecção de mínimas que eu fui publicando, entre 2005 e 2008, no BV. Se já leu, perdoe. Se não tinha lido ainda, perdoe também.
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A pessoa verdadeiramente importante não acredita na vida depois da sua morte.

Um homem sabe que está acabado quando até as mulheres que não o conhecem o abandonam.

Essa de se achar que o incréu vive nas trevas é uma ideia ofensiva. Tivera eu luz que chegasse e protestaria por escrito.

Por muitos gritos de Munch que pintem, haverá sempre alguém com cara de jardim das delícias.

Desaparecem as aldeias, mas os idiotas ficam.

O amor não correspondido é ridículo; o amor correspondido é a mais sublime forma de ridículo.

Existem um princípio e um fim, ligados por uma eternidade.

De todas as pessoas a quem te poderiam ordenar que amasses como a ti mesmo, tinham que escolher o teu vizinho.

Montes de problemas são separados por vales de lágrimas.

Se a Terra não fosse redonda, veríamos o infinito.

Tenho uma vontade de ferro – a preguiça é que ma enferruja.

Em terra de eunucos, quem tem sexo é o pai.

O crítico medíocre é um escritor falhado porque não é capaz de escrever; o bom crítico não consegue escrever porque é incapaz de parar de ler.

Muitas vezes é numa noite de insónia que a gente abre os olhos.

Deus tem a solução, apenas não se lembra onde a pôs.

“Quem não aparece, esquece”, disse o fantasma a Hamlet.

Para o homem deitado, toda a porta é um alçapão.

Alguns sucessos são apenas fracassos vivendo acima das suas possibilidades.

Dois séculos antes de os pitagóricos se terem saído com os números primos, já os lídios tinham as moedas cunhadas.

Jamais se arrependa do que escreve: outros se arrependerão por si.

Viver para sempre facilita o crédito bancário.

Algumas pessoas são como saleiros: só damos por elas quando as levam para outra mesa.

“Malcriado” é como as pessoas que tiveram uma educação se referem a alguém que, com um pouco mais de sorte, podia ter sido criado.

O problema com os castelos no ar é aquela arquitectura tem-te não caias.

Nem mesmo Onan agiu sozinho.

Como o tabaco, a vida é um hábito que não dá para ir reduzindo.

O humorista é um náufrago voluntário. E o seu primeiro dever, em vendo-se arrastado para as costas do sentido, é morrer na praia.

Ninguém é maior do que a sua obra, mas pode chegar perto fazendo uma alimentação equilibrada.

Eles pareciam desfeitos um para o outro.

O Mundo é um grande livro em que tudo está já escrito, mas com uma péssima caligrafia.

Gémeos: o desejo de igualdade levado ao extremo.

Certeza: uma dúvida sem saída.

Seita: uma religião sem caras conhecidas.

A única forma criativa de citar é citar errando.

“Dêem-me um ponto de apoio e moverei a Terra”, disse Arquimedes, sem consciência de que isso colocaria em risco todo o ecossistema.

É escriturando uma carta comercial (e não escrevendo poesia) que se pode de facto sentir aquilo que Pessoa sentia.

Devemos conhecer-nos a nós mesmos se não queremos que outra pessoa receba a nossa correspondência.

Corajoso: aquele que foge na direcção do inimigo.

Dou comigo a ver cada vez menos televisão e isso assusta-me. Não quero perder o contacto com a realidade.

Deus sabe tudo o que aconteceu no passado, tudo o que está a acontecer no presente e tudo o que vai acontecer no futuro, o que pode ajudar a explicar um certo desinteresse.

O golfe é a prova acabada de que o Homem é incapaz de andar umas centenas de metros sem dar com um pau em qualquer coisa.

O medo é uma reacção nervosa; a coragem é o domínio do medo; a razão é o controlo da coragem; a fuga é o comando da razão; o medo é a razão da fuga.

A pessoa que não lê porque não quer podia dar a quem quer ler mas não sabe a educação que tem mas não usa.

Finlândia: um país mítico para onde a maioria dos portugueses crê que vai depois de morrer.

Se a mente do depravado é uma lixeira, a do moralista é um aterro sanitário.

Não sinta vergonha de não achar graça às comédias de Shakespeare: eu mesmo só me rio por respeito.

Morte: pronome pessoal reflexo.

Para o zarolho, todo o amor é à primeira vista.

Vegetariano não tempera a comida, ele rega-a.

Eureka: um dia alguém fez mover o porta-multas e compreendeu que podia limpar o pára-brisas com ele.

Se vai escrever nas entrelinhas, imprima a dois espaços.

Antigamente, de todas as práticas médicas, aquela que mais impressão me fazia era a de tirarem vintes no liceu.

A meio de um noticiário ocorre-me que, se os actores gregos usavam máscaras distintas para a tragédia e para a comédia, era porque o público nem sempre conseguia distinguir uma da outra.

As maiores pérolas humorísticas são produzidas por pessoas com o sentido de humor de uma ostra.

Poeta: alguém que se aventura com a língua mais do que o pudor aconselha.

O microondas matou o banho-maria.

Um português só faz sentido na tropa.

Espertina de café: insónia sem honra.

Um homem conhece-se pelo seu ponto de embraiagem.

As aves raras poisam em lugares comuns.

Se a vida fosse como um livro, que melhor altura para morrer do que a época de Natal?

As folhas caídas transformam-se em romances que serão publicados na Primavera.

Aos 22 anos, a urgência dos sentidos; aos 44, um certo sentido de urgência.

O sinal de stop seria muito mais eficaz se significasse “direito absoluto de parar”.

A perda de prioridade não é um sinal de trânsito: é um sinal dos tempos.
Não julgue um livro pela capa: julgue a editora.

Opinião é um preconceito embrulhado para oferta.

Sempre que me sugerem uma ética das virtudes eu peço para ver a lista. Das virtudes.

Pressionar alguém para que deixe de fumar ou de beber é simplesmente sugerir-lhe que troque a sua forma de morrer por outra ainda menos eficaz.

O que não nos dizem é quase sempre verdadeiro.

“Engordará nem que seja à bomba”, disse a condessa à filha, e mandou preparar-lhe uma carbonária.~

O Mestre é o cómico. Os discípulos são apenas ridículos.

Anselmo só tomou verdadeiramente consciência de que ia para o mundo das trevas quando a Morte vestiu um colete reflector.

É muito importante que se conheça a origem da Tragédia para que se possa calcular os respectivos direitos de autor.

A mulher provocou a Queda, mas homem que é homem levanta-se.

A questão fundamental, quanto a mim, não está tanto em saber se o Neandertal podia falar; mas em saber se, podendo falar, diria alguma coisa de jeito.

Andar a filosofar é patético. Filosofar a andar é peripatético.

As imagens do cataclismo fortaleceram-lhe a determinação: fé, só mesmo numa religião em que até os bons se salvassem.

Não está certo misturar os “não sei” com os “não respondo”. Os primeiros são ignorantes. Os segundos sabem de mais.

Há cada vez mais substantivos sem emprego e adjectivos mal empregados.

Das quatro virtudes cardiais, a temperança é a que mais jeito dá na cozinha.

Para um português, a chuva é uma forma de seca.

Ler muito Hegel provoca geistrite.

Mito urbano: A província existe.

“O que o povo quer é sangue”, gritou brandindo a faca; e para que se apaziguassem as massas inventou-se logo ali a galinha de cabidela.

Era para se chamar Alegoria do Restaurante Indiano, mas nesse dia Platão decidiu jantar n’A Caverna.

O primeiro relógio inteiramente electrónico foi o americano Hamilton Pulsar.
O primeiro relógio inteiramente biológico foi o alemão Immanuel Kant.

Diz-se à boca pequena que o novo vizinho é dentista.

O saque de Constantinopla pelos cruzados foi uma coisa bizantina.

Oposto a um sinal de nonsense há sempre um outro de sentido obrigatório.

Pequenos luxos lisboetas: comer um rei sol na Versalhes.

Não faço questão de que levem o meu humor a sério. Já ficaria satisfeito se levassem as coisas sérias com humor.

No passado, o homem fazia o seu caminho baseado exclusivamente na fé. Depois veio a câmara e instalou semáforos na rua dele.

Se, como afirmam alguns estudos, as maiorias ignaras têm em geral opiniões mais correctas que as minorias bem informadas, então podemos perder a esperança de que não haja vida após a morte.

Existem apenas duas opções na vida de um homem: ir para padre ou não ir para padre. No caso das mulheres, a gama de opções é ainda mais restrita.

A ideia de que um bom solário resolve todos os problemas é uma gralha.

O humor deve ser praticado a uma distância considerável do alvo.

Toda a gente fala para si mesma. A presença de um terceiro é mera convenção social.

A maior parte dos namoros termina quando as raparigas percebem que os namorados são rapazes.

Humor é o processo pelo qual reconhecemos o insuportável absurdo da nossa existência e o transformamos num absurdo suportável.

Todo o homem tem um preço. Nem que seja esquecido nalguma peça de roupa.

O código de Hamurabi: 6339.

Se à terceira não obtiveres resposta, é provável que não estejas acompanhado.

Fundamentalista é aquele que respeita todos os direitos dos outros, à excepção dos fundamentais.

Se não tem arco, é neoclássico. Se tem, é violino.

Se não formos capazes de reconhecer os nossos erros, como poderemos culpar outra pessoa por eles?

Sabemos que um livro de memórias é mau quando acabamos de o ler e não nos lembramos de nada.

Falta menos de um mês para o fim do mundo. Depois faremos um balanço.

Filme de qualidade é aquele em que os actores insistem em não fazer o que nós queremos que eles façam.

A política é a arte conceptual por outros meios.

Não creio que vivamos numa “meritocracia”: a palavra nem sequer existe. E depois, há demasiados idiotas de sucesso.

A melhor forma de se ler um clássico é imaginar que o autor está sentado numa pequena cadeira na sala ao lado, aguardando, mortificado, o nosso julgamento; e que a qualquer momento podemos ir lá fazer-lhe uma pergunta ou dar-lhe um murro nas ventas.

Um livro é uma citação dentro de contexto.

Que lindo que é, o pinhal de Leiria com os seus eucaliptos.

Os homens têm segredos; as mulheres têm mistérios.

Imperativo, sim; categórico, talvez.

Pela emoção de se receber uma carta: todas as contas deviam ser manuscritas.

A família primeiro, pensou o futuro Cã, e matou o irmão.

Há um Sísifo em cada gilette.

Não há na Eternidade com que matar o tempo.

O sono é um adiantamento da morte. As insónias são os juros da vida. Tudo é usura metafísica.

O pior de um mau artista é o seu público.

Nenhuma grande utopia sobrevive sem restaurantes abertos depois das sete da tarde.

O conhecimento adquire-se; a sabedoria paga-se; a ignorância promove-se.

A existência de sequelas faz-me questionar a validade dos fins.

Não nos bastou perder o sentido da hospitalidade. Fomos mais longe: culpámos o hóspede por isso.

Já mais do que um fumador me perguntou (nervosamente) qual a maior diferença entre o antes e o depois. Não sou capaz de lhes mentir. A vida de fumador seria talvez mais curta, mas sempre tinha intervalos.

Sintaxe: difícil jogo de sociedade que consiste em construir frases inteligíveis utilizando apenas palavras.

Quem não percebe a diferença entre um rádio e um transístor não percebe nada de futebol.

Falo muito do que não sei, mas jamais com ligeireza.

Pôr o título à frente do nome é presunção; pô-lo atrás é um erro, a não ser que estejam separados por uma vírgula.

Não é de hoje que a francofonia tem vindo a perder terreno. Aristóteles, por exemplo, não falava uma palavra de francês.

Tudo o que ela dizia era no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Isso tornava a tarefa de a compreender muito difícil, porque terminava as frases antes de as começar.

“Enforquem o rei!”, gritava-se por todo o Nepal, mas não encontraram um lugar alto.

Na meia-idade uma pessoa abdica de tudo, menos do direito de falar a toda a hora da meia-idade.

Não concebo um apocalipse em que o arcanjo Miguel não se pareça com Steven Seagal.

Carga da Brigada Ligeira: cavalgada em direcção a uma morte certa em nome de uma causa duvidosa sob um comando incompetente. E para os cavaleiros também foi muito difícil.

Hoje entrei (inadvertidamente) num WC público de senhoras. É tudo o que imaginava.

Teve nota máxima a Matemática. Coisa genética. Já a mãe tivera cálculos nos rins.

30.3.09

Espere


Li algures que um filme de Manoel de Oliveira vai estar, pela primeira vez, presente na programação do Indie Lisboa. Já era tempo, até porque não é a primeira vez que um índio está presente num filme de Manoel de Oliveira, hahaha. [Céus, que piada tão rente-ao-pasto, mas que fazer? Não há tempo para mais, depressa, avancemos antes que o inexorável leitor – ou seria “inoxidável”? Não me lembro – perceba.] A interpretação do meu rebento na recente produção de A Menina do Mar foi, como eu previra, um sucesso retumbante: a assistência aplaudia desesperadamente frente às modernas portas, daquelas que se abrem quando se bate palmas, hahahahahaha. [Mais uma piada como esta e o sorumbático leitor vai espetar a faca de cortar papel no ecrã.] Sabia que Jonas se recusava a rasgar as vestes porque vestia Armani? o Senhor castigou-o fazendo com que o fato cheirasse a peixe. Ha-ha. [Ok. Assinei a minha sentença de extradição para a Islândia. Logo agora, com a crise financeira e isso. E eu que criara o blogue com o alto propósito de discutir Literatura Russa.]
Bom. Pela janela vejo prédios, árvores, carros, algumas lojas, pessoas. Chegou a altura de tentar perceber onde é que eu vivo e se existe um restaurante vegetariano por aqui: não quero correr o risco de um dia passar perto, ando tão sensível. Entretanto, vai um postezinho sobre Turgueniev? Dostoievski? Gogol? Espere, esse era ucraniano.

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Foto: o meu pequeno búzio, ao centro, agradece, como o pai lhe ensinou, os aplausos da multidão encurralada. Do lado esquerdo da foto, o deus do mar exibe a sua grande barbicha amarela, ou vomita o almoço, não percebi bem.

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, em algum momento de Março de 2009

24.3.09

Castelo interior

Como Santa Teresa de Ávila disse à carmelita descalça, ponha-se nos meus sapatos, dípode leitor: vai um pai com seu rebento ao supermercado e dá de caras com um homem verde fingindo que é estátua. Achei uma indecência, enganar as crianças dessa maneira – existem técnicas bem mais avançadas, algumas das quais (a modéstia proibe que o diga) inventadas por mim (olhe, já disse e não trouxe corrector, processe-me).

O júnior apercebeu-se do que eu ia fazer e ainda se quis interpor entre mim e a execranda criatura, mas tarde chegou. Com a determinação de um Sir Gawain aliviando o Cavaleiro Verde de uma dor de cabeça, ergui os braços na direcção da abóbada celeste e atirei o BU! mais assustador de que fui capaz com apenas um copo de leite e um café no estômago.

O salto que o embusteiro deu, leitor, havia de ter visto.

O pior é que eles eram afinal dois, e após breve conferência decidiram seguir-nos, semelhando autómatos, pelo corredor dos artigos de higiene pessoal. Aí, sim, aí confesso que senti alguma apreensão e apenas a custo resisti à indignidade da fuga através da secção de sapatos de senhora.

23.3.09

História muito tola e no entanto vera

Disputava o príncipe com o rei a única casa de banho do palácio:
“Precisamos de fazer a barba”, dizia o príncipe.
“E nós queremos tomar um banho de imersão”, retorquia o rei.
“Mas nós vamos passar a noute fora com uma cortesã gaiteira”, insistia o príncipe.
“Pois ide como estais, e tende o cuidado de tornar perfumado ao paço”, arreliava-se o rei.
Desta forma encostado aos azulejos, o príncipe permitiu que o rei entrasse na vetusta banheira; após o que lhe afogou a majestade sem grande dificuldade.

Ultrapassada alguma comoção inicial, o povo aclamou o matante como seu governante; e, em sinal de agradecimento à Divina Providência, o novo monarca não voltou a tomar banho de imersão em toda a sua longa vida – ainda hoje luzem no palácio o duche e polibã doirados que em lugar da real banheira ele mandou fossem instalados.

22.3.09

Dezassete

Vai o meu rapaz actuar, já na quarta-feira próxima, numa exigente produção escolar de A Menina do Mar, de Sophia de Mello Breyner, cabendo-lhe defender nada menos que dois papéis da maior relevância para o desenrolar da trama: o de polvo e o de búzio. A este último cabem duas valorizadas deixas, ao passo que o apetitoso cefalópode brilha mais pelo lado do desempenho somático, naquilo que se quer uma diegese estética da Volúpia-de-Si.

O histriónico leitor decerto aprovará que eu tenha de imediato iniciado a criança na Poética de Aristóteles, assim como n’A Origem da Tragédia, de Nietzsche; os cujos lhe li, qual Santo Ambrósio, em voz alta, permanecendo o menino amarrado a uma cadeira com um adesivo do rato Mickey na boca e a uma distância do televisor mais próximo superior a dez metros.


Estarei na primeira fila, naturalmente. E quando, cercado por amigos, conhecidos ou simples admiradores que não desdenharei, me perguntarem se a estrondosa crítica saiu na página um do jornal, responderei como o grande António Silva, o dedo indicando as himalaicas alturas:

“Upa, upa! Dezassete!”

26.2.09

Um fragmento

“E sucedeu que ao fim de quarenta dias Noé abriu a janelinha da arca que construíra: e enviou um corvo, que voou para lá e para cá até que as águas se sumissem da terra; mas nem a sua mulher, nem o seu filho Sem, nem o seu filho Cão, nem o seu filho Jafete, nem o corvo  acharam que isso fizesse qualquer sentido; e falaram-lhe com palavras de repreensão. Então a face de Noé cobriu-se de uma tez avermelhada, embora ele bebesse com moderação, e eis que soltou uma pomba, para que visse se as águas haviam escorrido da face da terra; mas a pomba não encontrou onde poisar a planta do pé, e regressou até ele na arca; pois as águas estavam ainda na face de toda a terra. E eis que Noé estendeu a mão, e apanhou a pomba e a trouxe para dentro da arca, onde lhe mostrou o Guia das Árvores do Mediterrâneo e do Oriente Médio. E ali o estudaram sete dias; e mais uma vez Noé enviou a pomba a partir da arca. E a pomba regressou pela tardinha; e eis que no bico trazia um raminho de azinheira; então Noé obrigou a pomba a estudar o Guia das Árvores do Mediterrâneo e do Oriente Médio durante mais sete dias, e soltou-a; e eis que a pomba regressou pela tardinha; e, eia, no bico trazia um raminho de sobreiro. Noé esperou ainda sete dias enquanto a pomba estudava o Guia das Árvores do Mediterrâneo e do Oriente Médio; e enviou a pomba, que não regressou porque estava com medo de Noé e preferiu ir morar com uma tia que vivia numa oliveira a apenas alguns estádios daquele local. Noé tirou a cobertura da arca para ver se a pomba ali se escondera; e eia, eis que a face da terra estava enxuta; no segundo mês, aos vinte e sete dias do mês, a terra estava enxuta.”

24.2.09

A deeper understanding of flamingos


Quando a dor súbita no tornozelo esquerdo me força ao pé-coxinho, é natural que me perguntem o que se passa comigo, em particular se estiver a tentar atravessar uma grande avenida com tráfego intenso ou a meio da minha elogiada imitação de dançarino cossaco. Mas eu esquiço um sorriso corajoso, oh, a gota, já passa. Um figurão, não faz ideia o efeito que isso tem nas mulheres.

(Antes de saber que padecia disso, imaginava que gota era coisa que inglês de inícios do século XIX apanhava em caçadas ao tigre na Índia, imagine a ignorância. Afinal apanha-se em casas de banho públicas.)

Então sinto-me como o capitão Toby em The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman, vítima de um calhau perdido que o atingira na virilha durante o cerco de Namur. Mas só até um certo ponto, naturalmente, o meu caso e o dele não têm comparação.

22.2.09

Não creio

Ah, os 40 – essa idade em que deitamos para trás das costas os complexos em relação ao nosso corpo e passamos a sentir apenas vergonha dele. Está o flagelo nutricionista a surtir efeito? Não sei, pantagruélico leitor, nem me importa. Queria despachar tudo o que é balança para a face escura da Lua, mas não vai dar, a minha mãe nasceu em Outubro.

Enfim, decidi que nos próximos dias estarei actualizando a lista de blogues aí à direita. Isso vai talvez fazer-me perder um pouco de cintura. Eu queria ter usado um esquema intrincado, mas reflecti um pouco e concluí que dificilmente os hermeneutas se dariam ao trabalho de o tentar decifrar. Eles preferem andar por aí a conferir quem grafa The Wasteland por The Waste Land e rir muito disso enquanto sorvem as suas aguinhas com gás por palhinhas e vêem qual deles melhor imita o olhar penetrante da vista tapada de Joyce.

Na semana passada, um amigo comum mas simpático apresentou-me ao professor Campos, sabe, o inventor da paisagem.  Combinámos dar um destes dias um passeio no seu jardim, se o leitor autorizar, claro, se não iremos antes para o jardim dele, para tirar umas fotos e me contar como foi lembrar-se de inventar algo tão extraordinário. Espero convite formal amanhã ou no dia seguinte, mas não tenho grande confiança no meu carteiro: em vinte anos de profissão, a única pessoa que ele alguma vez conseguiu encontrar em casa foi o Judeu Errante. O professor não usa telemóvel (tem nojo dos gnomos que vivem dentro dos auriculares) e por e-mail não sei se será viável, hoje até o Gmail me falhou na hora de enviar o boneco para o jornal.

Haverá um fim para tudo isto? Ou uma peça de Beckett na televisão em que quatro encapuçados atravessem a um ritmo regular e sem jamais se tocarem as linhas que unem os cantos de um quadrado traçado no palco?

Hoje? Não creio.

21.2.09

Passando sede

...no Deserto das Comunicações, Bandeira consultou o guru Un*x para saber qual o servidor de correio electrónico mais indicado para si.

“O da Netcabo falha-me; o do Kanguru recusa-se a aceitar correio se eu estiver ligado por outro fornecedor que não a Optimus; e agora as mulheres desprezam-me”, lamentou-se, cofiando a longa barba que não tinha.

O guru Un*x reflectiu durante algum tempo, entretendo-se a fazer estalar parasitas do couro cabeludo entre as unhas dos polegares. Então fez girar a cadeirinha de rodas cerca de trinta graus na direcção do suplicante e disse:

“Gmail.”

Bandeira olhou o guru Un*x com surpresa. “Mas à Netcabo e à Optimus eu pago uma quantia mensal de não pouca monta”, disse.

A isto respondeu o guru: “Um dia também pagarás o Gmail – apenas não sabes onde ou como.”

Bandeira compreendeu e curvou-se em sinal de reverência. Pisando latas de Coca-Cola, copos de café em plástico, caixas de pizza em decomposição e edições antigas da Dr. Dobbs, recuou até à porta do Templo dos Servidores; abriu o seu portátil; criou uma conta no Google Mail; e informou os três frequentadores do seu blogue que o endereço a utilizar passa a ser o que consta no canto superior direito.

14.2.09

O senhor Roberto

O senhor Roberto trancou o pequeno Opel. Era noite escura, o bairro perigoso, e, a meio dos cento e cinquenta metros que o separavam da entrada do prédio, teve um pressentimento:

“Vou morrer.”

Quarenta e dois anos depois, na Unidade de Cuidados Intensivos, uma enfermeira ainda chegou a tempo de ouvir as suas últimas palavras:

“Eu sabia.”

10.2.09

Júpiter

O cego ia arrancando uns fadunchos tristes da sanfona. Mostraram-lhe uma nota de cinco e apostaram em como ele não era capaz de tocar uma mozartada. Olhou-os com alguma sobranceria e respondeu que por cinco euros nem os Kiss tocava. Aceitou uma nota de vinte. Deu-lhe dois esticões, como que a confirmar que não se rasgava, dobrou-a em quatro e enfiou-a no bolso das calças. Então bafejou os dedos, ajeitou a sanfona e arrancou com a Júpiter. Soaram cordas, metais e madeiras na estação assombrada, gente descia da rua, comboios chegavam apinhados e partiam vazios em piloto automático.

No final foi muito aplaudido, e ele, com vergonha, agradecia e ia explicando que estava meio enferrujado e tal.

7.2.09

Novas Aventuras do Rufino

O Rufino gostava quando os pais o levavam a passear de carro, embora nas últimas centenas de quilómetros lhe custasse um bocadinho suportar o calor do tubo de escape.

Não havia dia que o Rufino fosse à praia com os pais que não se perdesse: eles tinham aprendido que deviam fugir sempre na direcção do Sol.

Em menino, o Rufino trazia sempre a pala do boné virada para trás. Foi apenas aos dez anos de idade que os médicos lhe endireitaram a cabeça.

Todos os dias a mãe do Rufino o mandava à mercearia comprar duas toneladas de arroz, e todos os dias o menino apanhava com o chinelo por deixar cair metade pelo caminho.

Cedo o Rufino procurou conforto nos livros; a mãe, porém, insistia em que ele dormisse apoiando a cabeça na almofada das agulhas.

O Rufino não teve brinquedos. O pai dele nunca lhe trazia um presente que não houvesse comprado a pensar no futuro, como frascos de arsénico e esquifes em pinho.

O Rufino encontrava refrigério na leitura de BD, mas uma matrícula assim surgia muito raramente.

Os pais do Rufino recorreram a um conselheiro matrimonial, mas nem assim foram capazes de se entender sobre qual dos dois tivera a culpa.

O Rufino tinha uma casa de banho só para si, mas nem sempre o vizinho lhe abria a porta.

Na adolescência, Rufino reflectiu sobre a sua orientação sexual e concluiu que era para baixo.

O Rufino chegou a fazer parte de uma banda Rock, mas ao cabo de um ano um dos restantes membros ficou sóbrio e percebeu que ele não era uma groupie.

O Rufino tentou o método socrático, mas as candidatas a namorada estranhavam tanta pergunta.

Quando finalmente acabou de ler Ulysses, o Rufino sofreu uma pancada na cabeça e perdeu a memória de tudo o que acontecera nos três meses anteriores.

O Rufino tentou o Tarot, mas as cartas vinham sempre devolvidas.

O Rufino leu toda a obra de Hegel no alemão original. Isso levá-lo-ia mais tarde a tentar aprender a língua.

O Rufino tentou comunicar com o Além usando uma tábua ouija. Na primeira sessão, apanhou um espírito fanhoso; na segunda, um analfabeto; na terceira, Kant. Nenhum dos três se percebia.

O primeiro puzzle gigante que o Rufino tentou resolver consistia numa foto do oceano Pacífico.

O Rufino tentou o solipsismo, mas as outras pessoas não paravam de existir.

O Rufino era o único membro do grupo de teatro amador lá da empresa a quem o ponto dava deixas erradas.
 
O Rufino não gostou muito da experiência no teatro; ele fazia de pancadas de Molière.

O Rufino é um homem simples. Dá-se por contente em ter cinco dedos em cada uma das três mãos.

Os colegas de trabalho achavam o Rufino um tipo cómico, em especial pelas caras que fazia quando ficava preso na trituradora.

Quando alguém quer descrever o Rufino, não diz simplesmente que é de estatura média: di-lo “um gigante minorquinha” ou “um anão enoooorme”.

O Rufino tentou a agricultura, mas ao fim do dia não via resultados.

O Rufino não falha uma dessas meias-maratonas domingueiras. Chega sempre em segundo na edição do ano seguinte, logo depois deste que se assina.

A carta mais simpática que o Rufino recebeu até hoje continha ameaças de Robert Mugabe.

O Rufino teve que desistir de visitar jardins botânicos porque as flores o atacavam.

O Rufino tem pés chatos. Pelo menos é o que diz o resto do corpo.

O Rufino é alérgico a apenas um tipo de comida, mas nunca sabe qual será da próxima vez.

O Rufino sabe ler a palavra “URGÊNCIAS” em trinta e sete idiomas.

Quando o Rufino por fim concluiu os dois anos da rigorosíssima dieta, a obesidade tornou-se não apenas saudável, como chique.

O Rufino teve problemas de fígado por usar after-shave com álcool.

O Rufino declarou-se à funcionária da repartição de Finanças. Ela respondeu, sem desviar os olhos do monitor, “nem que você fosse o último contribuinte do mundo”. E triplicou-lhe o imposto em dívida.

Quando o Rufino paga em dinheiro, exigem-lhe bilhete de identidade.

O Rufino não tem animais de estimação. O cão dele não o estima, o papagaio cinzento odeia-o e o cágado tentou enforcar-se num aloé.

Quando o cão leva o Rufino à rua, obriga-o a apanhar também o cocó dos cães seus amigos.

O Rufino é o único ser humano vivo que pode ser enterrado dentro da lei.

O Rufino tem sexo com alguma regularidade, mas não o usa.

O Rufino é o único habitante da ecúmena contra quem decretaram uma fatwa por se tentar converter ao Islão.

O Rufino fundou uma escola filosófica baseada no desapego aos bens materiais, mas os seus discípulos obrigavam-no a pagar uma mensalidade absurda.

O Rufino foi considerado responsável, e cumpriu pena, pela síncope em português das consoantes N e L intervocálicas. Ele acabaria sendo bastante maltratado pelos restantes prisioneiros de delito comum, muito sensíveis a violações da língua.

3.2.09

1X22111XX1X21

A experiência com o título do poste em baixo prova à saciedade (já tenho ouvido dizer à sociedade, não me parece mal; e também já ouvi dizer sabíamos de entre mão e gostei, embora o sentido da coisa me haja escapado, e – mas tergiverso, desculpe, desculpe), a experiência com o título em baixo prova à saciedade, dizia, que coroasse eu textos com matrizes de Totobola ou códigos postais e o fleumático leitor nem pestanejaria.
Reflectirei um pouco sobre o que pensar disso.

2.2.09

O que é um advérbio

Se o estimado leitor – que por conveniência minha imaginarei com cara de Vasco Santana – aprecia sobretudo acompanhar a Liga Moldava de Futebol; se o constrange não ter uma vida cultural que possa apresentar às tias e o seu próprio cão, nos dias bons, classifica de “aviltante”; se, por fim, calha estar na (ou perto da) capital, se tudo isso, então sorte a sua, porque patenteia o MNAA uma exposição à sua medida – tão pequenina que conseguirá vê-la no tempo que uma empresa leva a abrir falência e ainda dará para contemplar o tecto restaurado e trocar algumas impressões com a vigilante sobre o que é verdadeiramente relevante, a saber, a qualidade dos golos que Mandricenco marcou esta época pelo FC Sheriff Tiraspol. Depois visite as titis endinheiradas e diga com ar magnífico, queridas tias, contemplei Rembrandt; sou um Erudito, um homem das Artes; dai-me dinheiro para o avião, exaure-me as finanças todas as semanas fazer visitas de estudo ao Prado, ao Louvre, enfim, a todos esses grandes museus que a Moldávia tem.

(Eu estava a brincar quando disse que o imaginaria com a cara de Vasco Santana, usei a da Alma Mahler, haha. Foi bom para si também?)

Dos quadrinhos expostos – o óleo, algo soturno, representando o filho Titus; algumas, poucas, gravuras; e outros tantos esboços –, gostei particularmente do esquiço representando uma mulher de costas com um belo drapejado no local onde, como sói dizer-se, as costas mudam de nome. Se já não visita o museu há uns tempos, aproveite para dar uma voltinha, veja o novo quadro que o Tiepolo criou expressamente para os portugueses (veio na imprensa) e constate como o MNAA está muito mais bonito, vê-se que andou ali mão de pintor.

Cabe aqui lembrar que Rembrandt era holandês, e de um holandês sabemos o que esperar: “Forçudo, talhado à bruta, competente, concentrado, rude no falar e nos modos, pesado no movimento, como se o corpo tenha dificuldade em dobrar-se e obedecer ao que o cérebro vagarosamente lhe manda”. É J. Rentes de Carvalho quem no-lo diz em Com os Holandeses, publicado agorinha mesmo pela Quetzal, pormenores aqui, foi de onde tirei essa citação. Não tenha medo de ler, os holandeses gostam que um estrangeiro lhes diga como são, e eles não são nada como nós – por isso o livro, na versão holandesa, já vai na 14ª edição.
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Imagem: bonito, hmm? Não é Rembrandt.

1.2.09

Imagine uma múmia



Saltitámos, eu por causa do ainda combalido tornozelo, o júnior porque acha engraçado imitar-me, até à exposição Impressões do Oriente – De Eça de Queiroz a Leite de Vasconcelos, no Museu de Arqueologia. Curta mas interessante, a mostra fotográfica, deu para confirmar a minha impressão de que na época os artefactos mais estudados eram mesmo as odaliscas. E Leite de Vasconcelos é tão mal conhecido, uma pena.

A imagem da entrada é fabulosa – ocorreu-me agora que é talvez por isso que está à entrada, hahaha –, o estupendo equipamento fotográfico também, que diferença para a hiper-sofisticada tecnologia digital que agora se usa. Senti até um pouco de vergonha. No auditório projectavam um slideshow acompanhado com música, adivinhe qual? O Introitus do requiem de Mozart (depois ainda dizem que no las hay). Claro que isso deu ao rapaz irreprimível desejo – mesmo que ele não se tenha apercebido do complexo mecanismo mental envolvido – de revisitar as múmias. Fiz-lhe a vontade, mas não consegui deixar de pensar que existe algo de moralmente condenável em impor a pessoas que estão mortas há pelo menos um par de milénios a presença de crianças, para mais hiperactivas.

A foto em cima foi tirada precisamente no sector de antiguidades egípcias. O júnior é o que está de costas, eu estou deitado, de pés para ele. É natural que tenha ficado um pouco tremida. Se a gente abana como abana após umas dezenas de anos, imagine uma múmia.

Monografia

Escrevo este pequeno texto, não por urgência de partilhar com o mundo as minhas dolências, mas por saber que completos estranhos são consumidos pelo anseio de ler exposições da condição clínica alheia.

Ainda bem que pudemos esclarecer este ponto.

A questão da alimentação confunde-me ainda. Ao que percebo, é-me interdito comer o que quer que seja que saiba a seja o que for, e mesmo algumas coisas que não sabem de todo, como margarina vegetal e queijo magro (perdoe esse oximoro medonho). Pão, posso comer, desde que torrado e barrado com coisa nenhuma. Suplício de Tântalo, gastrónomo leitor. Enfim, pelo menos a próstata vai óptima, obrigado por perguntar.

Quem sabe existem excepções, ou talvez dias santos em que toda a comida faça o Bem. Na semana que passou entreabri a porta da clínica e, usando da minha melhor imitação de Martim Moniz (se não entrar completamente não é considerado consulta), pedi à recepcionista que inquirisse a Dra. A., assim que a ocasião o propiciasse, sobre a possibilidade de eu poder degustar polvo à lagareiro. Polvo vive na água, é quase peixe, alimento esperanças. Claro, teria ficado muito mais aborrecido se os exames houvessem revelado problemas na próstata, isso da alimentação é chato mas aguenta-se.

A questão do polvo está neste momento a percorrer o costumeiro labirinto burocrático, espero despacho favorável. Eu já lhe tinha dito que não tenho problemas de próstata? Desculpe, esqueci-me que já mo tinha perguntado, esta cabeça. Não, com a próstata tudo vai bem, obrigado por se interessar.

O lado bom de tudo isto: inevitavelmente, perderei peso. Ah! E não tenho problemas de próstata. O futuro é risonho. Acho.

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, 2004

30.1.09

Lisboa-Porto-Lisboa num dia como este

Não consigo imaginar muitas coisas mais enfadonhas que uma corrida Lisboa-Porto-Lisboa num dia como este. À saída da última portagem, tem-se a sensação de que a auto-estrada é uma lavagem automática cara de mais. E um chofer tem de se entreter com alguma coisa. Esquecidos os CD em casa, e uma vez que outros choferes procuravam por todos os meios a minha morte violenta, fui inventando epitáfios. Macabro, eu sei, não tenho sido eu mesmo ultimamente, vinha até com medo que a BT me pedisse os documentos. Mas já dei uma voltinha por alguns blogues e fiquei mais descansado ao perceber que não sou só eu.

Depois de muito congeminar, afeiçoei-me a este:

BONE AGAIN AGNOSTIC

29.1.09

O corpo de B. Franklin, Impressor

No dia em que Benjamin Franklin morreu, choraram nas suas estantes mais de quatro mil volumes. Ridículo para os padrões actuais, eu sei, mas a dele era, à data, nada menos que a maior biblioteca privada da América do Norte. E que livros chorariam hoje pelos seus donos? Os meus, hmm, os meus acho que não.

Leia esse epitáfio que Franklin, impressor de ofício, compusera em jovem para a sua própria sepultura (tradução caseira):
O corpo de
B. Franklin, Impressor
(Qual Capa de um Velho Livro,
Estripado do seu Conteúdo
E Despojado de seu Título e Douraduras)
Aqui Jaz, Alimento para Vermes.
Mas não se perderá a Obra;
Pois esta (assim o Acreditava) Surgirá uma vez Mais
Em Nova e mais Elegante Edição,
Revista e Corrigida
Pelo Autor. *
Mas Benjamin mudou de ideias. A inscrição que hoje lhe adorna a sepultura, por vontade expressa no seu testamento, é bem mais modesta:
Benjamin and Deborah Franklin: 1790
A propósito, não sei se lho disse, mudei de óculos. Não que isso a si lhe faça diferença, mas aos meus livros… enfim, gosto de pensar que eles se importam.
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*The body of B. Franklin, Printer (Like the Cover of an Old Book Its Contents torn Out And Stript of its Lettering and Gilding) Lies Here, Food for Worms. But the Work shall not be Lost; For it will (as he Believ'd) Appear once More In a New and More Elegant Edition Revised and Corrected By the Author.

Ainda tenho uma vaga

28.1.09

De novo

Eu já tinha publicado este clip no BV, mas não resisto, aqui vai de novo.



(Le Sacre du Printemps, de Stravinski, coreografia de Pina Bausch, Tanztheater Wuppertal.)

Numa remota província da antiga China

Numa remota província da antiga China (são sempre remotas e sempre na China), os locais praticavam um cruel ritual propiciatório: todos os anos, ao som de Stravinski, faziam afogar duas virgens nas águas do grande rio que ali passa e que frequentemente transbordava, destruindo colheitas, habitações, vidas até.

Em hora feliz um novo governador chegou à província e com ele a notícia de que na capital mudara a dinastia: a China era agora dirigida por homens de superior instrução. Horrorizado com o barbarismo da cerimónia e da música de Stravinski, ele ordenou que os dois sacerdotes incumbidos do rito fossem de imediato afogados no rio que tantas vezes haviam propiciado. Depois projectou canais, diques, transvases; e as instruções do sábio foram executadas com tanto zelo e rigor que em menos de um ano a sua conclusão foi alegremente anunciada e celebrada com música de Grieg, Sibelius e uma banda convidada de que agora me escapa o nome.

O governador, frágil como todo o homem instruído, não viveria um mês para além do remate das suas obras: sentiu-se mal, morreu numa semana, diz-se que os deuses necessitaram dos seus valiosos serviços. A população da remota província da China recorda-o com carinho pela sua sabedoria, e todos os anos afoga dois sacerdotes nas águas do rio, o qual não voltou, até hoje, a estender-se para fora do seu caminho.

27.1.09

Mínimas

O fundamental quando se envelhece é não olhar para trás. Sabe, por causa dos ossos do pescoço.

21.1.09

We will bury you

O sapato lançado contra George W. Bush quase atirou um outro 43 biqueira larga para os abismos do esquecimento. Falo daquele que Nikita Kruschov descalçou em plena sessão das Nações Unidas e com o qual começou a bater em cima da mesa (vi em documentário, eu não era ainda nascido). O então primeiro-ministro britânico olhou para o intérprete e perguntou algo como: Importava-se de traduzir isso? E aquilo que podia ter dado em crise grave acabou em gargalhada geral.
Mas consta que o intérprete, esse, andou anos em terapia.

Nomenclatura

O meu filho fingiu que ficou um pouquinho sentido por eu ter levado a irmã ao concerto dos Il Giardino Armonico e não o ter convidado a ele, que não é menos carne da minha carne e não sangro eu quando me picam e tal. Expliquei-lhe que o Händel foi prenda de anos e lembrei-lhe que o tinha levado a ele à estreia do Stabat Mater do Carrapatoso e não convidara a irmã. Olhe a manha da criaturinha:

“Aaaaah, mas isso era música clássica moderna.”

Um dia levo-o a ouvir “música clássica moderna” e obrigo-o a ficar até ao fim, para ele aprender que devemos ser cautelosos com a nomenclatura.

8.1.09

60 dias

Abri a caixa do correio e lá estava o logótipo no canto do envelope. Rasguei-o ainda no átrio e comecei a ler a coisa pelo meio. Algo sobre como o requerimento tal e tal dera entrada em tal e tal e que “tem 60 dias para entr” e aí parei de ler, coloquei de novo a carta na caixa e fechei-a bem fechada.

Entrei em casa e comecei a folhear uma coisa sobre Kant, em francês, onde se alega, ao que percebi, que ele foi treslido por Sartre e se explica em que medida. Interessante. Dez minutos depois peguei em Night Watch, de Terry Pratchett. Conhece? Ele é famoso pelo seus livros sobre Discworld, um mundo em forma de disco que é suportado por uma tartaruga assente em quatro elefantes.

Um cão que me traga pantufas. Que cão? E eu é que sei?

5.1.09

O papel da gripe

Ameacei espirrar sobre o funcionário se ele não falasse com a notária ao telefone. Recuou um pouco na sua cadeira de rodinhas, mas não cedeu. Olhei em redor em busca de bebés que pudesse alugar e dizer meus, às vezes ajuda. Nem um. Foi então que me veio a ideia. Disse que ela, a notária, era linda – mentira nenhuma – e que eu tinha o poder de os pôr a falar um com o outro.

Do lado de lá da secretária balia agora um cordeiro, e quando lhe passei a chamada já todo ele era Bogart preparando-se para uma troca de ditos espirituosos com Bacall. Nem lhe ocorreu que o meu telemóvel tinha provavelmente mais vírus por milímetro quadrado que uma lamela de microscópio após um salto da prancha de dez metros para as profundezas peliculares de um disco de Petri.

Quando chegaram a um acordo, eu senti a cabeça deslizar do cepo para o patíbulo frio e molhado. Ainda estava presa ao corpo.

4.1.09

Melhorar as coisas

Charles Ives ao seu editor de música: “Senhor Price, por favor não tente melhorar as coisas! Todas as notas erradas estão certas.”