26.2.09

Um fragmento

“E sucedeu que ao fim de quarenta dias Noé abriu a janelinha da arca que construíra: e enviou um corvo, que voou para lá e para cá até que as águas se sumissem da terra; mas nem a sua mulher, nem o seu filho Sem, nem o seu filho Cão, nem o seu filho Jafete, nem o corvo  acharam que isso fizesse qualquer sentido; e falaram-lhe com palavras de repreensão. Então a face de Noé cobriu-se de uma tez avermelhada, embora ele bebesse com moderação, e eis que soltou uma pomba, para que visse se as águas haviam escorrido da face da terra; mas a pomba não encontrou onde poisar a planta do pé, e regressou até ele na arca; pois as águas estavam ainda na face de toda a terra. E eis que Noé estendeu a mão, e apanhou a pomba e a trouxe para dentro da arca, onde lhe mostrou o Guia das Árvores do Mediterrâneo e do Oriente Médio. E ali o estudaram sete dias; e mais uma vez Noé enviou a pomba a partir da arca. E a pomba regressou pela tardinha; e eis que no bico trazia um raminho de azinheira; então Noé obrigou a pomba a estudar o Guia das Árvores do Mediterrâneo e do Oriente Médio durante mais sete dias, e soltou-a; e eis que a pomba regressou pela tardinha; e, eia, no bico trazia um raminho de sobreiro. Noé esperou ainda sete dias enquanto a pomba estudava o Guia das Árvores do Mediterrâneo e do Oriente Médio; e enviou a pomba, que não regressou porque estava com medo de Noé e preferiu ir morar com uma tia que vivia numa oliveira a apenas alguns estádios daquele local. Noé tirou a cobertura da arca para ver se a pomba ali se escondera; e eia, eis que a face da terra estava enxuta; no segundo mês, aos vinte e sete dias do mês, a terra estava enxuta.”

24.2.09

A deeper understanding of flamingos


Quando a dor súbita no tornozelo esquerdo me força ao pé-coxinho, é natural que me perguntem o que se passa comigo, em particular se estiver a tentar atravessar uma grande avenida com tráfego intenso ou a meio da minha elogiada imitação de dançarino cossaco. Mas eu esquiço um sorriso corajoso, oh, a gota, já passa. Um figurão, não faz ideia o efeito que isso tem nas mulheres.

(Antes de saber que padecia disso, imaginava que gota era coisa que inglês de inícios do século XIX apanhava em caçadas ao tigre na Índia, imagine a ignorância. Afinal apanha-se em casas de banho públicas.)

Então sinto-me como o capitão Toby em The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman, vítima de um calhau perdido que o atingira na virilha durante o cerco de Namur. Mas só até um certo ponto, naturalmente, o meu caso e o dele não têm comparação.

22.2.09

Não creio

Ah, os 40 – essa idade em que deitamos para trás das costas os complexos em relação ao nosso corpo e passamos a sentir apenas vergonha dele. Está o flagelo nutricionista a surtir efeito? Não sei, pantagruélico leitor, nem me importa. Queria despachar tudo o que é balança para a face escura da Lua, mas não vai dar, a minha mãe nasceu em Outubro.

Enfim, decidi que nos próximos dias estarei actualizando a lista de blogues aí à direita. Isso vai talvez fazer-me perder um pouco de cintura. Eu queria ter usado um esquema intrincado, mas reflecti um pouco e concluí que dificilmente os hermeneutas se dariam ao trabalho de o tentar decifrar. Eles preferem andar por aí a conferir quem grafa The Wasteland por The Waste Land e rir muito disso enquanto sorvem as suas aguinhas com gás por palhinhas e vêem qual deles melhor imita o olhar penetrante da vista tapada de Joyce.

Na semana passada, um amigo comum mas simpático apresentou-me ao professor Campos, sabe, o inventor da paisagem.  Combinámos dar um destes dias um passeio no seu jardim, se o leitor autorizar, claro, se não iremos antes para o jardim dele, para tirar umas fotos e me contar como foi lembrar-se de inventar algo tão extraordinário. Espero convite formal amanhã ou no dia seguinte, mas não tenho grande confiança no meu carteiro: em vinte anos de profissão, a única pessoa que ele alguma vez conseguiu encontrar em casa foi o Judeu Errante. O professor não usa telemóvel (tem nojo dos gnomos que vivem dentro dos auriculares) e por e-mail não sei se será viável, hoje até o Gmail me falhou na hora de enviar o boneco para o jornal.

Haverá um fim para tudo isto? Ou uma peça de Beckett na televisão em que quatro encapuçados atravessem a um ritmo regular e sem jamais se tocarem as linhas que unem os cantos de um quadrado traçado no palco?

Hoje? Não creio.

21.2.09

Passando sede

...no Deserto das Comunicações, Bandeira consultou o guru Un*x para saber qual o servidor de correio electrónico mais indicado para si.

“O da Netcabo falha-me; o do Kanguru recusa-se a aceitar correio se eu estiver ligado por outro fornecedor que não a Optimus; e agora as mulheres desprezam-me”, lamentou-se, cofiando a longa barba que não tinha.

O guru Un*x reflectiu durante algum tempo, entretendo-se a fazer estalar parasitas do couro cabeludo entre as unhas dos polegares. Então fez girar a cadeirinha de rodas cerca de trinta graus na direcção do suplicante e disse:

“Gmail.”

Bandeira olhou o guru Un*x com surpresa. “Mas à Netcabo e à Optimus eu pago uma quantia mensal de não pouca monta”, disse.

A isto respondeu o guru: “Um dia também pagarás o Gmail – apenas não sabes onde ou como.”

Bandeira compreendeu e curvou-se em sinal de reverência. Pisando latas de Coca-Cola, copos de café em plástico, caixas de pizza em decomposição e edições antigas da Dr. Dobbs, recuou até à porta do Templo dos Servidores; abriu o seu portátil; criou uma conta no Google Mail; e informou os três frequentadores do seu blogue que o endereço a utilizar passa a ser o que consta no canto superior direito.

14.2.09

O senhor Roberto

O senhor Roberto trancou o pequeno Opel. Era noite escura, o bairro perigoso, e, a meio dos cento e cinquenta metros que o separavam da entrada do prédio, teve um pressentimento:

“Vou morrer.”

Quarenta e dois anos depois, na Unidade de Cuidados Intensivos, uma enfermeira ainda chegou a tempo de ouvir as suas últimas palavras:

“Eu sabia.”

10.2.09

Júpiter

O cego ia arrancando uns fadunchos tristes da sanfona. Mostraram-lhe uma nota de cinco e apostaram em como ele não era capaz de tocar uma mozartada. Olhou-os com alguma sobranceria e respondeu que por cinco euros nem os Kiss tocava. Aceitou uma nota de vinte. Deu-lhe dois esticões, como que a confirmar que não se rasgava, dobrou-a em quatro e enfiou-a no bolso das calças. Então bafejou os dedos, ajeitou a sanfona e arrancou com a Júpiter. Soaram cordas, metais e madeiras na estação assombrada, gente descia da rua, comboios chegavam apinhados e partiam vazios em piloto automático.

No final foi muito aplaudido, e ele, com vergonha, agradecia e ia explicando que estava meio enferrujado e tal.

7.2.09

Novas Aventuras do Rufino

O Rufino gostava quando os pais o levavam a passear de carro, embora nas últimas centenas de quilómetros lhe custasse um bocadinho suportar o calor do tubo de escape.

Não havia dia que o Rufino fosse à praia com os pais que não se perdesse: eles tinham aprendido que deviam fugir sempre na direcção do Sol.

Em menino, o Rufino trazia sempre a pala do boné virada para trás. Foi apenas aos dez anos de idade que os médicos lhe endireitaram a cabeça.

Todos os dias a mãe do Rufino o mandava à mercearia comprar duas toneladas de arroz, e todos os dias o menino apanhava com o chinelo por deixar cair metade pelo caminho.

Cedo o Rufino procurou conforto nos livros; a mãe, porém, insistia em que ele dormisse apoiando a cabeça na almofada das agulhas.

O Rufino não teve brinquedos. O pai dele nunca lhe trazia um presente que não houvesse comprado a pensar no futuro, como frascos de arsénico e esquifes em pinho.

O Rufino encontrava refrigério na leitura de BD, mas uma matrícula assim surgia muito raramente.

Os pais do Rufino recorreram a um conselheiro matrimonial, mas nem assim foram capazes de se entender sobre qual dos dois tivera a culpa.

O Rufino tinha uma casa de banho só para si, mas nem sempre o vizinho lhe abria a porta.

Na adolescência, Rufino reflectiu sobre a sua orientação sexual e concluiu que era para baixo.

O Rufino chegou a fazer parte de uma banda Rock, mas ao cabo de um ano um dos restantes membros ficou sóbrio e percebeu que ele não era uma groupie.

O Rufino tentou o método socrático, mas as candidatas a namorada estranhavam tanta pergunta.

Quando finalmente acabou de ler Ulysses, o Rufino sofreu uma pancada na cabeça e perdeu a memória de tudo o que acontecera nos três meses anteriores.

O Rufino tentou o Tarot, mas as cartas vinham sempre devolvidas.

O Rufino leu toda a obra de Hegel no alemão original. Isso levá-lo-ia mais tarde a tentar aprender a língua.

O Rufino tentou comunicar com o Além usando uma tábua ouija. Na primeira sessão, apanhou um espírito fanhoso; na segunda, um analfabeto; na terceira, Kant. Nenhum dos três se percebia.

O primeiro puzzle gigante que o Rufino tentou resolver consistia numa foto do oceano Pacífico.

O Rufino tentou o solipsismo, mas as outras pessoas não paravam de existir.

O Rufino era o único membro do grupo de teatro amador lá da empresa a quem o ponto dava deixas erradas.
 
O Rufino não gostou muito da experiência no teatro; ele fazia de pancadas de Molière.

O Rufino é um homem simples. Dá-se por contente em ter cinco dedos em cada uma das três mãos.

Os colegas de trabalho achavam o Rufino um tipo cómico, em especial pelas caras que fazia quando ficava preso na trituradora.

Quando alguém quer descrever o Rufino, não diz simplesmente que é de estatura média: di-lo “um gigante minorquinha” ou “um anão enoooorme”.

O Rufino tentou a agricultura, mas ao fim do dia não via resultados.

O Rufino não falha uma dessas meias-maratonas domingueiras. Chega sempre em segundo na edição do ano seguinte, logo depois deste que se assina.

A carta mais simpática que o Rufino recebeu até hoje continha ameaças de Robert Mugabe.

O Rufino teve que desistir de visitar jardins botânicos porque as flores o atacavam.

O Rufino tem pés chatos. Pelo menos é o que diz o resto do corpo.

O Rufino é alérgico a apenas um tipo de comida, mas nunca sabe qual será da próxima vez.

O Rufino sabe ler a palavra “URGÊNCIAS” em trinta e sete idiomas.

Quando o Rufino por fim concluiu os dois anos da rigorosíssima dieta, a obesidade tornou-se não apenas saudável, como chique.

O Rufino teve problemas de fígado por usar after-shave com álcool.

O Rufino declarou-se à funcionária da repartição de Finanças. Ela respondeu, sem desviar os olhos do monitor, “nem que você fosse o último contribuinte do mundo”. E triplicou-lhe o imposto em dívida.

Quando o Rufino paga em dinheiro, exigem-lhe bilhete de identidade.

O Rufino não tem animais de estimação. O cão dele não o estima, o papagaio cinzento odeia-o e o cágado tentou enforcar-se num aloé.

Quando o cão leva o Rufino à rua, obriga-o a apanhar também o cocó dos cães seus amigos.

O Rufino é o único ser humano vivo que pode ser enterrado dentro da lei.

O Rufino tem sexo com alguma regularidade, mas não o usa.

O Rufino é o único habitante da ecúmena contra quem decretaram uma fatwa por se tentar converter ao Islão.

O Rufino fundou uma escola filosófica baseada no desapego aos bens materiais, mas os seus discípulos obrigavam-no a pagar uma mensalidade absurda.

O Rufino foi considerado responsável, e cumpriu pena, pela síncope em português das consoantes N e L intervocálicas. Ele acabaria sendo bastante maltratado pelos restantes prisioneiros de delito comum, muito sensíveis a violações da língua.

3.2.09

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A experiência com o título do poste em baixo prova à saciedade (já tenho ouvido dizer à sociedade, não me parece mal; e também já ouvi dizer sabíamos de entre mão e gostei, embora o sentido da coisa me haja escapado, e – mas tergiverso, desculpe, desculpe), a experiência com o título em baixo prova à saciedade, dizia, que coroasse eu textos com matrizes de Totobola ou códigos postais e o fleumático leitor nem pestanejaria.
Reflectirei um pouco sobre o que pensar disso.

2.2.09

O que é um advérbio

Se o estimado leitor – que por conveniência minha imaginarei com cara de Vasco Santana – aprecia sobretudo acompanhar a Liga Moldava de Futebol; se o constrange não ter uma vida cultural que possa apresentar às tias e o seu próprio cão, nos dias bons, classifica de “aviltante”; se, por fim, calha estar na (ou perto da) capital, se tudo isso, então sorte a sua, porque patenteia o MNAA uma exposição à sua medida – tão pequenina que conseguirá vê-la no tempo que uma empresa leva a abrir falência e ainda dará para contemplar o tecto restaurado e trocar algumas impressões com a vigilante sobre o que é verdadeiramente relevante, a saber, a qualidade dos golos que Mandricenco marcou esta época pelo FC Sheriff Tiraspol. Depois visite as titis endinheiradas e diga com ar magnífico, queridas tias, contemplei Rembrandt; sou um Erudito, um homem das Artes; dai-me dinheiro para o avião, exaure-me as finanças todas as semanas fazer visitas de estudo ao Prado, ao Louvre, enfim, a todos esses grandes museus que a Moldávia tem.

(Eu estava a brincar quando disse que o imaginaria com a cara de Vasco Santana, usei a da Alma Mahler, haha. Foi bom para si também?)

Dos quadrinhos expostos – o óleo, algo soturno, representando o filho Titus; algumas, poucas, gravuras; e outros tantos esboços –, gostei particularmente do esquiço representando uma mulher de costas com um belo drapejado no local onde, como sói dizer-se, as costas mudam de nome. Se já não visita o museu há uns tempos, aproveite para dar uma voltinha, veja o novo quadro que o Tiepolo criou expressamente para os portugueses (veio na imprensa) e constate como o MNAA está muito mais bonito, vê-se que andou ali mão de pintor.

Cabe aqui lembrar que Rembrandt era holandês, e de um holandês sabemos o que esperar: “Forçudo, talhado à bruta, competente, concentrado, rude no falar e nos modos, pesado no movimento, como se o corpo tenha dificuldade em dobrar-se e obedecer ao que o cérebro vagarosamente lhe manda”. É J. Rentes de Carvalho quem no-lo diz em Com os Holandeses, publicado agorinha mesmo pela Quetzal, pormenores aqui, foi de onde tirei essa citação. Não tenha medo de ler, os holandeses gostam que um estrangeiro lhes diga como são, e eles não são nada como nós – por isso o livro, na versão holandesa, já vai na 14ª edição.
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Imagem: bonito, hmm? Não é Rembrandt.

1.2.09

Imagine uma múmia



Saltitámos, eu por causa do ainda combalido tornozelo, o júnior porque acha engraçado imitar-me, até à exposição Impressões do Oriente – De Eça de Queiroz a Leite de Vasconcelos, no Museu de Arqueologia. Curta mas interessante, a mostra fotográfica, deu para confirmar a minha impressão de que na época os artefactos mais estudados eram mesmo as odaliscas. E Leite de Vasconcelos é tão mal conhecido, uma pena.

A imagem da entrada é fabulosa – ocorreu-me agora que é talvez por isso que está à entrada, hahaha –, o estupendo equipamento fotográfico também, que diferença para a hiper-sofisticada tecnologia digital que agora se usa. Senti até um pouco de vergonha. No auditório projectavam um slideshow acompanhado com música, adivinhe qual? O Introitus do requiem de Mozart (depois ainda dizem que no las hay). Claro que isso deu ao rapaz irreprimível desejo – mesmo que ele não se tenha apercebido do complexo mecanismo mental envolvido – de revisitar as múmias. Fiz-lhe a vontade, mas não consegui deixar de pensar que existe algo de moralmente condenável em impor a pessoas que estão mortas há pelo menos um par de milénios a presença de crianças, para mais hiperactivas.

A foto em cima foi tirada precisamente no sector de antiguidades egípcias. O júnior é o que está de costas, eu estou deitado, de pés para ele. É natural que tenha ficado um pouco tremida. Se a gente abana como abana após umas dezenas de anos, imagine uma múmia.

Monografia

Escrevo este pequeno texto, não por urgência de partilhar com o mundo as minhas dolências, mas por saber que completos estranhos são consumidos pelo anseio de ler exposições da condição clínica alheia.

Ainda bem que pudemos esclarecer este ponto.

A questão da alimentação confunde-me ainda. Ao que percebo, é-me interdito comer o que quer que seja que saiba a seja o que for, e mesmo algumas coisas que não sabem de todo, como margarina vegetal e queijo magro (perdoe esse oximoro medonho). Pão, posso comer, desde que torrado e barrado com coisa nenhuma. Suplício de Tântalo, gastrónomo leitor. Enfim, pelo menos a próstata vai óptima, obrigado por perguntar.

Quem sabe existem excepções, ou talvez dias santos em que toda a comida faça o Bem. Na semana que passou entreabri a porta da clínica e, usando da minha melhor imitação de Martim Moniz (se não entrar completamente não é considerado consulta), pedi à recepcionista que inquirisse a Dra. A., assim que a ocasião o propiciasse, sobre a possibilidade de eu poder degustar polvo à lagareiro. Polvo vive na água, é quase peixe, alimento esperanças. Claro, teria ficado muito mais aborrecido se os exames houvessem revelado problemas na próstata, isso da alimentação é chato mas aguenta-se.

A questão do polvo está neste momento a percorrer o costumeiro labirinto burocrático, espero despacho favorável. Eu já lhe tinha dito que não tenho problemas de próstata? Desculpe, esqueci-me que já mo tinha perguntado, esta cabeça. Não, com a próstata tudo vai bem, obrigado por se interessar.

O lado bom de tudo isto: inevitavelmente, perderei peso. Ah! E não tenho problemas de próstata. O futuro é risonho. Acho.

Bandeira de Papel


Cravo & Ferradura, DN, 2004