20.8.10

21.7.10

PORCA! PORCA!

Mesmo em Portugal, a experiência de conduzir ouvindo uma senhora a gritar “PORCA! PORCA!” na faixa do lado tem o seu quê de aviltante. Sobretudo quando se possui carta há apenas duas ou três semanas, como sucede com a minha filha. Se eu teria ficado incomodado, imagine a menina, para mais estando o automóvel dela tão lavadinho. Que canhestra manobra poderia ter levado uma senhora com ar de quem esteve presente na inauguração do Martinho da Arcada a comportar-se como um motorista de táxi do aeroporto de Lisboa a quem houvessem pedido uma corrida para, sei lá, a Portela de Sacavém?

A idosa acabou por mudar de direcção e o meu trémulo rebento lá seguiu o seu caminho, procurando controlar os nervos e retirar algum sentido de tão afrontoso trato por parte da colega automobilista. Eis senão quando outro condutor se lembrou de abrir o vidro eléctrico do lugar do passageiro do carro dele e gritar: “PORCA! PORCA!”.

Há que admiti-lo: seria de mais até mesmo para mim, que já conduzi em Itália (aqui o leitor estremece). Aterrorizada, a menina ponderou encostar o carro à berma, ligar os quatro piscas, vestir o colete, colocar o triângulo à distância regulamentar – perdoemos-lhe essas ingenuidades, praticamente acabou de tirar a carta – e pedir boleia para o resto do caminho. Parecia-lhe tão mais seguro. Foi aí que o olhar dela se prendeu na porta. “Não estava muito bem fechada, pai”, disse-me com aquela candura que me dá sempre vontade de a fazer co-titular da minha conta bancária.

Então expliquei-lhe como em finais do séc. XIX ficou cientificamente provado que algumas consoantes, a uma velocidade superior a 40 km/h, são difíceis de discernir quando gritadas de um outro objecto em andamento a mais de quatro metros de distância (ficou também provado que, a velocidades acima de 50 km/h, os ocupantes das viaturas explodem; o mesmo sucedendo debaixo de água, mas por motivos completamente diferentes. A explicação não tem aqui cabimento porque é demasiado técnica e deixa tudo numa imundície).

A menina, eu nem precisava de o dizer, ficou muito contente. Até porque, não se tratando propriamente de um elogio, a locução “PORTA! PORTA!” está longe de poder ser classificada como injuriosa. Em tribunal, renderia quando muito um double cheeseburguer. Em todo o caso, sei-a agora muito mais preparada para outro tipo de locuções, quiçá não tão coloridas mas bem menos simpáticas, como “És ceguinha ou quê, pá?” ou “Os seus documentos, por favor”.

29.6.10

Uma carta a Queiroz

Um tipo chamado Phil Woosnam, antigo jogador e treinador galês hoje naturalizado americano porque não se conseguia lembrar de como se dizia “futebol” em inglês, sintetizou na perfeição a filosofia do jogo. Ele dizia que “se a bola se mexe, devemos dar-lhe um pontapé; se não se mexe, devemos pontapeá-la até que se mexa”.

Não sei dar ao professor Queiroz, muita honra como vai o prazer é todo meu guardarei este momento para sempre no meu coração, maior ajuda do que isso que leu nesse parágrafo aí em cima. Conto que seja suficiente para, mais logo, bater a selecção adversária. A cuja é a Espanha, lembrei-me agora mesmo.

Allez les bleus!
ou lá o que é que se diz nestas ocasiões, eu estarei torcendo uma vuvuzela por vocês.

18.5.10

Desfazendo mitos

Não é verdade que o Canal Parlamento tenha sido criado para que os outros canais pudessem parecer interessantes.

17.5.10

Mínimas

Se não quer que toda a gente olhe para si no restaurante, evite sentar-se sob o televisor.

30.4.10

Escrevem “Retrato de um jovem”

como se, sem essa informação, fôssemos incapazes de perceber que o retratado não é propriamente um idoso.

28.4.10

Falhar melhor

O miúdo tinha o sol de frente, fazia sombra nos olhos com uma mão e com a outra tentava defender. Muitas bolas entravam, claro; e ele tentando, e eu olhando-o da bancada e lembrando-me da expressão de Beckett, tentar outra vez, falhar outra vez, falhar melhor, e sentindo esse amor inegociável pelo miúdo que falhava uma e outra e ainda outra vez, cada vez melhor.

Willing suspension of disbelief

Se acha a verdade desconfortável, experimente as cadeiras da Cornucópia.

7.4.10

Mínimas

As cidades são os bolsos para onde os países atiram tudo e mais alguma coisa.

2.3.10

O terceiro diagnóstico

Eu já podia celebrar o milésimo aniversário da primeira vez que disse isto, eu sei, mas não sou homem para efemérides. Ontem, porém, deixei-me tocar pelas imagens de um monte de gente escalando a estátua do Marquês de Pombal e acometendo os cimentos da Avenida dos Aliados para comemorar o dia que Chopin festejava como sendo o do seu aniversário. E porque nunca desperdiço uma oportunidade para fazer que sou erudito, lembrarei, para desfrute do leitor assim mais dado a citações, um excerto de uma carta que o tísico franco-polaco escreveu a um amigo parisiense a partir do seu triste idílio em Maiorca (eia, um oximoro, viu? – eu avisei que não desperdiçava uma oportunidade). Reza assim:

“Três médicos vieram ver-me. O primeiro disse que eu ia morrer. O segundo, que eu estava a morrer. O terceiro, que eu estava morto.”

Hoje, médico algum hesita em concordar com o terceiro diagnóstico – mas também é certo que a Medicina está muito mais avançada.

9.1.10

99% de literassia, temos a gente

Calhou-me ontem usar a caixa Multibanco da estação de serviço de Torres Vedras para ver se conseguia transferir dinheiro da conta de alguém muito rico para a minha. Não foi possível, provavelmente o sistema estava em baixo, acontece-me sempre isso. Do lado esquerdo do teclado, um autocolante prevenia os incautos:

ATM protegido
As notas serão inutilizadas em caso de abertura indevida.

Imaginei o meliante, imerso no seu indispensável barrete encardido, no acto de acorrentar a caixa à Ford Transit roubada; a cuja, traseira meio enfiada no lado ilegal da montra estilhaçada, aguardaria em delicado ponto de embraiagem a conclusão da tarefa. Então um colega de bando, notando o autocolante, interromperia a intervenção urbanística:

“Lamento, mas este ATM está protegido, old sport. As notas serão inutilizadas em caso de abertura indevida. Que sorte madrasta.”

E os assaltantes abandonariam cabisbaixamente o objecto da sua cupidez, após o que procurariam uma mercearia que a essa hora ainda estivesse aberta e rapinariam o recheio da caixa registadora. Frugal, na melhor das hipóteses, mas decerto não adulterável, ainda que em caso de abertura indevida.