24.12.16

Feliz Natal!

Não é fácil ser-se o presumível pai de oito crianças (eram sete mas uma não resistiu) por alturas do Natal, sobretudo quando se está desempregado numa firma que paga tão pouco quanto a minha – uma startup ostentando digníssima inscrição na porta, no espaço livre entre as citações judiciais, com os dizeres “Emprendendo desde 2017”. Por várias vezes chamei a atenção para a falta de um “e” no enunciado; do economato respondem invariavelmente que a pouca tinta que circula ainda nas veias da velha impressora está reservada para coisas verdadeiramente importantes, como fotos de gatinhos tiradas do Instagram, bilhetes para a ópera (excepto o Don Carlos) e notas de banco, não forçosamente por esta ordem.

Procurei uma lojinha de brinquedos no centro comercial Pandemónio e solicitei à menina atrás do balcão – onde se escondia, soube-o depois, por não ter “nada para vestir” – que me aconselhasse uma prenda para oito crianças entre os três meses e os nove anos de idade; igual para todas, claro, porque eu jamais aceitaria favorecimentos à vista de toda a gente. Conversámos um pouco sobre como era engraçado que ela, com um doutoramento em Astrofísica e duas idas à Lua no currículo, tivesse acabado numa loja de brinquedos. “Todos os anos tenho dado o mesmo aos miúdos”, disse-lhe então (não sem dificuldade porquanto a menina, gemendo, batia com a máquina Multibanco na cabeça), “Licor Beirão para os mais novos e vodka para os mais velhos, para eles misturarem com o que quiserem e dessa forma incentivar o seu espírito de iniciativa; mas este ano faltam-me os meios e, além disso, queria variar um bocadinho”. “Cigarros são uma boa alternativa”, respondeu a astrofísica entre soluços, “os mais velhos de certeza que já fumam e os mais novos gostam sempre de ver os bonecos”.

É preciso algum cuidado com os conselhos de pessoas que vivem na Lua. Ainda assim, comprei uma garrafa de CRF e um pacote de Definitivos que encontrei num alfarrabista. Tenciono telefonar à minha mulher e convidá-la a aparecer, na condição de não trazer o Gelsão com ela. A família toda reunida, outra vez. Vai ser uma festa.

Rufino

6 comentários:

redonda disse...

Feliz Natal!

José Bandeira disse...

:) Feliz Natal, Redonda

Anónimo disse...

Peço desculpa,Rufino,de chegar tão atrasado.Mas eu mal consigo andar.
Olhe lá --a CRF ainda se recomenda como há quarenta anos?
Desejo-lhe como sempre o melhor,a si e aos oito filhos.
tiudózio

Rufino Fino (neto) disse...

Eu é que peço desculpa, Tiudózio, de ser tardio na resposta. Nós por cá todos bem, os miúdos adoraram a CRF (que está na mesma, sim) e eu mesmo passei uma noite descansada na sala de espera do hospital. Um forte abraço e um grande ano para si, são os votos deste que se assina.

Anónimo disse...

Estimado a/c Rufino Neto
Adianto já,pelos atrasos,o sugerido há anos.Nem eu sei já quando,os comentários sumiram-se aqui na quântica da net.Vem chegando o Natal.
Sempre quer os 2 volumes dos Écrits/Lacan ? Nunca me serviram. Aqui no prédio não os querem e já não tenho pernas nem paciência para os regatear num alfarrabista.O estruturalismo teve pouca dura e dá agora muito trabalho revalorizá-lo para receber algum cacau.
Terá Você um endereço que o não comprometa com o Freud metido a ferros no Saussure ? E que não esforce o sr. Correio na subida ao seu andar? Talvez para o D.N.? Serão as primeiras prendas deste Natal.
Desejo-lhe o melhor.
tiudózio

José Bandeira disse...

Já tinha respondido no DO quando li este, Tiudósio. Depois apaguei o comentário. O melhor será talvez enviar o Lacan para o café Ponto de Rebuçado (um nome muito conforme à psicanálise), Avenida de Roma, 121-A, 1700-346 Lisboa, ao cuidado de José Bandeira. Chegar-me-á às mãos sem dificuldade, aquilo é gente de bem e a senhora faz uns rissóis de comer e chorar por mais. É isso o que levamos da vida, uns fritos.
Um abraço grato,
Z