6.10.17

Da Lua Cheia

O meu bairro, democrata leitor, madrugou com tanques bloqueando-lhe as ruas. O pretexto oficial, esfarrapadíssimo, consiste num desarrazoado sobre a necessidade de lhe deitar fumegante alcatrão nas vias. “Vai demorar uns diazinhos”, informa o guarda com um sorriso que me parece oscilar entre o solidário e o escarninho, consoante se sente mais povo ou mais Autoridade. Adivinho vingança do presidente da Câmara: caiu nas eleições. Que vou eu fazer agora? Preso a cem metros da praia em pleno Outubro, com um tempo que lembra Agosto e as esplanadas fervilhando? Uma Coreia do Norte, é o que isto é, uma Coreia do Norte.

Adenda:
Reconsiderei os motivos que levaram a Câmara que preside aos destinos do meu bairro a fechá-lo para repavimentação e beneficiamentos vários. Fez-se (literalmente) luz quando ontem, noite caída, contemplei da janela a lua cheia que passava já acima do tabuleiro da ponte, áurea e colossal primeiro, branca e mais recatada depois, banhando com argentina luz o Mar da Palha: ela subia para mim. Assim a Câmara, os funcionários, a paróquia em peso. Como Madonna em Lisboa, resido aqui não há ainda meia dúzia de meses; alguém, do IRN, da Junta, do Clube da Sueca, que sei eu, espalhou palavra: e em conluio determinou-se que se alindaria o arredor para melhor me receber. Como pude não o ter percebido antes? Saio à rua passando, com um sorrisinho cúmplice, pelos calceteiros que neste preciso momento alegram com os seus martelinhos (os deles) a notável sinfonia das retroescavadoras, dos cilindros e dos sinais sonoros prevenindo velhotas surdas contra uma qualquer marcha atrás. Sem jeito, eles fingem má cara. Como tudo isto é divertido! Faço má cara eu também, pisco-lhes o olho e vou tomar uma bica, fingindo, fingindo sempre que não sei que me amam e que estão felizes por me saberem aqui. É bem verdade quando dizem que, neste século XXI, eu é a pessoa mais importante do mundo.